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NinaGiovelli

Nina Giovelli 

Bailarina, performer e pesquisadora; graduada em Dança pela UNICAMP. É integrante do Núcleo Artérias desde 2010 e desde 2006 trabalha em colaboração com outros artistas de diversas áreas em intervenções urbanas, performances, vídeos, instalações, danças, etc. Atualmente investiga um corpo vulnerável, livre e inerente as suas paixões; procurando criar trabalhos de dança-subversão.

Diário de Sítio – Nina Giovelli

Terceiro mês – janeiro/fevereiro  /2015

 

[estudo para dobrar o azul]

 

eu gosto mesmo é de roubar olhares
e para isso, as vezes, é preciso fazer umas danças…

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foto: Luiza Meira

 

último relato da residência] [impulso para ação que segue

Nessa última escrita quero somar percepções, impressões, experiências, atravessamentos e pensamentos; a escrita me pede organização e clareza mas, pela natureza do corpo, tudo se embaralha, tudo se mistura, presente-passado-futuro, fazer-olhar-ler, escrever-projetar-revisitar… Separei o texto em tópicos e começarei pelo terceiro, passando então para o primeiro, segundo e último.

 

III) Do espelhamento

“vim re-significar este sítio [para o olhar do outro] e vejo que isso ocorreu em mim”

Imagino que quando um artista/performer/bailarino/ator ou “o que quer que seja” vai para o espaço urbano ele esteja carregado de inquietações e desejos; artistas são monstros-desejantes, e imagino que queira de alguma forma interferir, provocar, criar imagens nesse sítio. Quando vim para a residência Situ(ações) vim com desejos, desejos antigos que se transformaram em desejos atuais e agora se transformam em novos desejos: desdobramentos do encontro desse desejo inicial com o sítio.

Meu desejo:

Tendo então o espaço da estação e sua lógica que acaba por ofuscar olhares e percepções poéticas; essa proposição é uma tentativa de desviar estes olhares, roubando-os por instantes para outras percepções, provocando-os ludicamente para outras possibilidades de apreensão sensível dos acontecimentos. Busca-se despertar no público uma redescoberta e uma reinvenção crítica do automatismo em que ele está inserido.

Agora me vejo em um espelhamento: fui para o sítio para desviar o olhar dos passantes, provocar com o lúdico, tentar criar nos passantes uma nova memória daquele espaço…

[sempre que me perguntavam sobre esse projeto minha fala era: estou tentando fazer com que quem passa ali todo dia mesmo que por um segundo se choque com algo inusitado e isso se agregue como uma nova memória, então quando essa pessoa passar ali de novo, talvez ela re-visite esse instante inusitado, essa nova percepção, essa imagem estranha/lúdica, essa sensação]

… então, agora, passo por aquele lugar novamente, mas estou  “fora de campo”, “a paisana” e percebo que agreguei no meu corpo uma multidão de olhares, de sensações e que nunca mais aquelas “rampas de acesso” serão as mesmas. O sítio ganhou outra qualidades de relação, de empatia, de sensação; re-signifiquei para mim mesma aquele espaço e acredito que tenha re-significado em algum grau, mais sutil, para quem passou por mim ali.

  1. I) Sensa[Percep]ções das Danç[A]ções

 

(aquecer o corpo; testar se os corrimões estão bem fixos, colocando meu peso contra eles; medir a rampa, o corrimão, as aberturas com o corpo; andar lentamente; correr em zigue-zague pegando impulso nos corrimões passando entre as pessoas; instalar o corpo em desarticulação na estrutura; se misturar com a estrutura; dança dos esbarrões, nas caminhadas lentas ou pausas; dança relacional roubando gestos e olhares de quem passa, dança dos “nãos”; tentar dobrar o azul)

Minhas idas para as rampas nessa última etapa da residência foram mais constantes e me arrisco a dizer que foram mais relevantes; já chegava no sítio com um a atenção aguçada, a energia do corpo mais justa (sem exagero ou sem ficar exausta depois das ações), em alguns dias me sentia “eficiente” no trabalho de propor um corpo que não fosse eficiente, que não respondesse apenas ao que sugere a lógica das rampas, sensações boas, percepções mais precisas e sempre apontamentos para me aprofundar ainda mais nesses encontros com os passantes da Barra Funda.

– Nos aquecimentos na área externa me sentia acolhida e a essa altura já havia uma cumplicidade, uma espécie de acordo secreto, uma parceria com os vendedores ambulantes. Passei a usar esse momento de preparar o corpo para as ações como um momento também de “gastar a dança no corpo”; explico: muitas vezes precisei ajustar a energia para poder transitar entre graduações de movimentos expansivos/dançantes e movimentos cotidianos e para isso era preciso ajustar a força “gastar a dança”. A resposta de quem via essas danças era mais imediata, logo as pessoas percebiam que era uma dançarina fazendo uma performance; quando acabava eu me misturava na multidão e esperava, caminhava por todas as rampas e só assim ficava pronta para a interação com o sítio, mas já havia começado.

– No começo eu testava mais ações de pausa e permanência, o que causava muito estranhamento nas pessoas, e muitas vezes a ação acabava com a interferência da equipe de segurança do metrô (desde o começo da residência optei por trabalhar nesse limite, isto é, sem autorização da segurança) esse transtorno era algo interessante, um acontecimento que movimentava de maneira diferente a lógica das rampas, mas eu não sentia que a minha intervenção somada a intervenção da segurança resultavam em algo que tivesse potência poética. Então com o passar do tempo fui entendendo essas limitações do sítio e as ações foram se transformando, fui me tornando invisivél quando era necessario.

Modular de um corpo-cotidiano para um corpo-poético-estranho-desajustado

Modular de multidão para monstro

inverter

… propor uma imagem, ficar atenta, se algo for interferir desfaço e me misturo novamente na multidão… vou percorrendo e percebendo o que o espaço pede, as rampas me dançam, não sou eu que danço nelas…

 

– Nos “tubos”, onde concentrei a maioria das ações: quando me dei conta de que todo projeto arquitetônico das rampas foi elaborado para o escoamento rápido das pessoas, as estruturas se repetem, sugerindo intuitivamente uma repetição de passos rápidos, diretos e de direções  definidas; comecei meu projeto de subverter essa lógica e meu corpo resistia e reagia se dobrando, fazendo curvas, olhando as pessoas que passam nos olhos, pegando seus olhares, falas e gestos como motivo para dança.

 

As danças que surgiram: arcos, dobras azuis, “dança dos nãos”, amassando a estrutura dura, tatear e medir.

 

– Algumas vezes estive em estados de prazer que não cabiam ali, ou não era esperado, era incomum/inadequado  a aquele espaço. A “dança dos nãos” surge disso, um estado de prazer que gera um estranhamento em quem vê, que por sua vez responde com “não”, que transforma a dança na “dança dos nãos”; um comentário das reações, uma conversa.

Na dança in situ o corpo torna-se como o tempo mais poroso, super perceptivo e atento e assim pode propor também, pode se manifestar, pode deixar o sítio dançá-lo; mas acredito que seja necessario muito compromentimento e muita concentração, o performer tem que mergulhar, tem que se sujar, se misturar, morar no sítio escolhido, para de fato chegar na dança in situ, e não apenas levar dança para espaços urbanos.

 

  1. II) Sobre a experiência IN SITU

– Estar sozinha

Uma das minhas maiores dificuldades desse processo foi ir sozinha para o sítio, as dificuldades vão desde onde deixar objetos pessoais, passam por ter que conversar com a segurança do metrô e explicar o que está acontecendo e porque não pedi autorização e seguem com uma percepção do tempo um pouo estranha e alterada (quando ia sozinha uma ansiedade apressava as ações). Foi difícil conquistar uma tranquilidade para desenvolver as danças e para achar o tempo justo das ações, mas acredito ter sido uma experiência muito potente para mim como artista, esse risco me faz questionar a real necessidade da intervenção e esse questionamento me leva a ser mais rigorosa e precisa, torna tudo mais potente e vital.

– Receber as visitas

Foi muito importante e prazeroso receber as “visitas” no sítio, ter mais alguém com você é como se os problemas de estar sozinha se apagassem e assim foi possível arriscar mais e ir além. E obviamente é muito relevante ter um olhar de fora para te dar algum retorno, ouvir seus desejos, perceber suas danças e como o sítio reage a elas.

Uma pessoa só se mistura na multidão facilmente, não agrega uma “platéia” para a ação, o que no meu caso é bem importante, já que a intervenção foi feita para quem passa e não para um público estático.

Foi muito importante para mim os retornos dos meus visitantes: Luiza, Anny e Lili, Thais e Pedro Ivo. A cada visita e cada olhar difierente recebia mais impulso e estímulo para as ações.

  1. IV) Um fluxo de pensamento, de pesquisa e de uma rotina de experimentação [de si, do outro e de sítio]

Essa pesquisa é uma tentativa de ser mais um nesse lugar, mas ser um que tensiona as relações que ali se contrõem, entre pessoas e espaço à

 

Quero terminar esse texto com uma proposta de reflexão, para seguir os caminhos.

Quando nos colocamos num processo de criação em dança site-specific/in situ em sítios urbanos e públicos da cidade de São Paulo o que de fato queremos e desejamos provocar?

Uma das minhas “respostas” de agora, após a experiência da residência, passa pela vontade de me experimentar, de experimentar o outro, experimentar a dança, experimentar a cidade de São Paulo de maneira mais potente e inquieta; e gostaria de “contaminar” outras pessoas e espaços com isso. É possível ocupar de fato a cidade, viver a cidade de maneira não regrada e automática. É necessário colocar mais densidade política nos corpos, propor questionamentos, maneiras distintas de se relacionar que fujam da lógica do trabalho e consumo. Seguir intervindo e roubando instantes.

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foto: Maria Clara Sá

 

 

Segundo mês – dezembro/ janeiro  2014/2015

 

Refletindo sobre o primeiro mês da residência e como inseri a prática in situ no meu dia a dia de artista da dança e pesquisadora me vi “filosofando sobre ser artista da dança” e “ser artista em São Paulo”, é intrigante pensar em como temos que nos organizar para pesquisar na rua: levar figurino e objetos, onde deixar a mochila?, onde se vestir?, precisar de um banho depois da ação, etc e logo em seguida ir para algum outro canto da cidade e dar uma aula, ou ensaiar numa sala vazia, ou assistir uma palestra, ou entregar um projeto, ou resolver algo burocrático, ou encontrar alguém…. Difícil evitar a idéia de que pesquisadores-dançarinos que trabalham na rua, fora das “salas vazias”, são como “seres errantes”, seres diferentes, monstros na multidão, pessoas com uma rotina cheia de infrenquências e que percebem a cidade com olhos inquietos.

Essa sensação me leva para o texto “Elogio aos errantes – breve histórico das errâncias urbanas” da arquiteta e urbanista Paola Berenstein Jacques, que fala sobre como os artistas que trabalham no espaço público-urbano vêem a cidade: como um campo de investigação sempre aberto a novas possibilidades sensíveis,

 

“Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós”.

“A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas, por onde se anda nas povoações… Ora, a rua é muito mais do que isso a rua é um fator de vida das cidades, a rua tem alma! (…) A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça (…) Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhes as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar”

 João do Rio (1881-1921, pseudônimo de Paulo Barreto)

A autora cita artistas como Flávio de Carvalho, Helio Oiticica e Lygia Clark e traz a tona a consideração que os urbanistas teriam esquecido, diante de preocupações funcionais e formais, do potencial poético do urbano; e com uma frase de Oiticica ela dá voz a uma “crítica” dos errantes urbanos aos urbanistas modernos: é preciso “ poetizar o urbano”. São Paulo, metrópole que nos bombardeia de informações e excessos que muitas vezes ofuscam nosso olhar, esta cheia de potenciais poéticas.

“Poetizar o urbano

↓ As ruas e as bobagens do nosso daydream diário se enriquecem

↓ Vê-se q elas não são bobagens nem trouvailles sem consequência

↓ São o pé calçado pronto para o delirium ambulatorium renovado a cada dia”

Helio Oiticica em “Eu em mitos vadios”

Link para o texto: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.053/536 ]

 

Esse estudo é também uma tentativa de roubar olhares.

 

[PAUSA]

 

[Retomando: práticas e pensAções]

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foto: Pedro Ivo Carvalho

Faltam algumas semanas para o fim da residência me vejo com a urgência/ansiedade de fechar uma proposta, um roteiro, quero me aprofundar e ter algo para o ensaio aberto em fevereiro.

Escrevo, escrevo…. Faço um roteiro, uma sequência de ações escolhidas dentre as que experimentei até agora. Vou para as rampas…

Quando chego ao sítio e vou realizar o roteiro, percebo que tudo está mais vazio, meu “público-passante” agora é bem menos numeroso (estamos na época de férias das faculdades que estão no entorno)…

fluxo de pessoas agora mais calmo, olhares  mais relaxados.

Uma das ações que escolhi – dançar entre as pessoas, numa pesquisa de roubar seus olhares para me movimentar com foco nas articulações me alimentando dos olhares/expressões/falas e das dobras azuis da arquitetura – não me dá a sensação da mesma potência de antes; mas é nessa dança que quero continuar a me apronfundar, como provocação para esse sítio, meu trabalho se torna tentar roubar olhares.

 

As caminhadas lentas não provocam tanto estranhamento, tenho mais espaço e sinto as pessoas mais lentas, elas desviam sem se incomodar.

Invisto então em criar imagens nas dobras azuis da estrutura, tento me fazer de invisível nesse azul, mas é exatamente isso que me torna mais visível – um corpo que se (des)articula de maneira estranha nas estruturas chama o olhar. E volto ao meu “trabalho” de medir as rampas com meu corpo, mas como tem azul no chão essas duas ações se embaralham na minha execução.

_ A experiencia de ir para as rampas com um roteiro pré-definido e sentir na pele que esse roteiro foi totalmente modificado/embaralhado/questionado pelo sítio me quebrou a perspectiva (ou expectativa) de ter algo “mais seguro”, “mais acabado”. Penso que a dança in situ é uma pesquisa longa e trabalhosa, pois quem a faz se coloca num espaço que também dança, um espaço dinâmico e pouco previsível, penso que o trabalho de pesquisa no corpo pode ser mais focado em sensibilizar e aguçar o corpo para perceber, responder e dar voz ao espaço/sítio e, talvez depois de muito estudo e de muito estar nesse lugar, se tornar parte dele e “de dentro” propor algo.

Pretendo seguir então, nas próximas semanas, experimentando e aumentando a minha escuta, percebendo e reagindo ao que o sítio me dá e devolvendo algo a ele.

Meus estudos de corpo-instalado e corpo-passagem se borram, se misturam; busco um corpo mais perceptivo e reativo, ao invés de ativo e propositivo.

[DERIVAS de responder, roubar olhares e dobrar o azul]

As ações seguem as mesmas (testar se os corrimões estão bem fixos, colocando meu peso contra eles; medir a rampa, o corrimão, as aberturas com o corpo; andar lentamente; correr em zigue-zague pegando impulso nos corrimões passando entre as pessoas; instalar o corpo em desarticulação; dança dos esbarrões, nas caminhadas lentas ou pausas; dança relacional roubando gestos e olhares de quem passa) mas com qual começar, seguir ou terminar, transições, durações, tudo se tornou imprevisível, se tornou resposta.

 

Nas rampas percebo com clareza que o seu projeto arquitetônico foi elaborado para o escoamento rápido das pessoas, sua preocupação é basicamente a mobilidade e a funcionalidade.

O azul que se repete está na cobertura e nas laterais (estruturas metálicas que formam arcos e retas) e está no chão (sinalização em relevo para deficientes visuais), essa cor sugere uma certa frieza, uma certa distância, é a cor do fundo.

As estruturas se repetem, o que no corpo sugere uma repetição de passos rápidos, diretos e de direções bem definidas.

Meu corpo tem reagido a isto e tenta dobrar, desarticular, tornar mais mole, mais orgânico, mais lento, tenta ser monstro.

Essa pesquisa é uma tentativa de ser mais um nesse lugar, mas ser um que tensiona as relações que ali se contrõem, entre pessoas e espaço.

[estudo para dobrar o azul]

[Roubar olhares]

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foto: Lígia Rizzo (tratamento: Pedro Ivo Carvalho)

 

 [Dobrar o Azul]

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foto: Pedro Ivo Carvalho

 

 

[devaneios e soluções]

Diário de Sítio

Primeiro mês – novembro /dezembro 2014

Sítio: Rampas de acesso ao terminal Barra Funda

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Quero começar este relato contando o que tem me movido como artista da dança, tenho levado meu olhar exatamente para isso: o que provoca o desejo pela dança e as relações que são possiveis de tecer das experiências do ato de dançar, em diferentes contextos e espaços (palco, rua, espaços expositivos, etc). Acredito que a dança seja uma maneira discutir/provocar questionamentos e vejo o corpo como um espaço de densidade política capaz de mostrar que é possível inventar outras formas de se relacionar, outras formas de prazer que fujam da idéia de “consumo” e ainda outras formas de convivência e de uso do espaço urbano; acredito que seja mais efetiva essa “provocação” na dança in situ, onde a relação com o espaço, com o proprio corpo e com o outro se dá na experiência e não na representação. Por isso me interessei pela residência do projeto Situ(ações) do Núcleo Aqui Mesmo, para me aproximar e experimentar seus interesses artísticos e seus procedimentos de criação em dança site-specific/in situ. Tenho muito interesse em trocar com artistas que pensam a dança para/no espaço urbano e me interessa criar paisagens poéticas e provocar deslocamentos na rotina urbana.

 

[Sobre o sitio escolhido]

Para a residência, escolhi as rampas de acesso ao terminal Barra Funda, pois gostaria de instalar lá uma dança in situ para seu “público passante”, no terminal além da arquitetura tenho como material para explorar o movimento e fluxo intenso de pessoas.

Observo que as pessoas estão com a atenção para além do corpo e do espaço; nessas passagens a preocupação das pessoas é chegar no seu objetivo e dificilmente elas percebem a arquitetura e ate mesmo as outras pessoas passantes, gostaria de deslocar o olhar de quem passa por ali, propondo algum grau de re-significação desse lugar, agregando a ele outras memórias e sensações.

A Estação Barra Funda está na Rua Bento Teobaldo Ferraz, número 119; foi Inaugurada em dezembro de 1988 e é o maior terminal do sistema, interligando metrô, trens e ônibus. Aqui chegam a transitar cerca de 60.000 pessoas em horario de pico.

[Proposta inicial]

Criar uma paisagem poética e experimentar um desafio/um comentário sobre o sitio escolhido e os padrões de movimento que ele propõe, procurando criar deslocamentos na percepção e na rotina de quem passa por ali.

Cheguei nas rampas no inicio da residencia levando pequenas danças, corridas, deslocamentos muito lentos, ações cotidianas que gradualmente se transformam em danças, proposições de outras maneiras de se relacionar com o espaço que não sejam funcionais e tentativas de subversão da gravidade.

O sítio já pede ao corpo uma presença, um corporeidade, um modo de se perceber, de perceber o outro e o proprio sitio, pede um modo de existir e já propõe poéticas, leituras e até dramaturgias e assim acredito que cabe ao dançarino/perfomer se colocar diante disso e se deixar levar, não acho que seja uma experiência de controle, mas sim de fluxo entre corpo e espaço/arquitetura/público passante.

[DERIVAS  de assesso]

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Nas primeiras semanas de investigação optei por ir ao sítio sem uma programação muito fixa para explorar e assim perceber o que o espaço provocaria no meu corpo e como isso transformaria minhas ideias e propostas. Me coloquei em num estado de deriva, tentando não propor/programar apenas perceber e reagir.

nas rampas as pessoas se inclinam para ajustar o corpo ‘a iclinacao do piso, olham para baixo, para frente, para o celular, para o livro

conversam

seus passos sao quase sempre rapidos e retos,

sao caminhadas objetivas

o fluxo é quase sempre intenso

algumas breves calmarias

 

no teto os “tubos” que cobrem a rampa propoe ritmos regulares

uma velocidade constante recortada pelas emendas

 

meu corpo sente impulsos de DESOBEDIENCIA

deslocamentos na horizontal

um corpo desajustado

deitar no chao ou no corrimao  (corpo desarticulado) que busca um tempo de permanência

LENTIDÃO

deslocar-se de maneira não functional

[…]

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Os garis, as faxineiras e os funcionários da estação me chamaram muito a atenção, depois de algumas derivas com foco na arquitetura meu olho quer descansar nas pessoas,

mas percebo que para quem passa eles são quase invisíveis, o que já é esperado…

Seus uniformes apagam a sua personalidade, mas, nas mulheres principalmente, posso ver que cada uma usa algo “pessoal”, o que me faz pensar nas especificidade de cada uma delas e na minha, no que estou fazendo ali e qual a minha “função” naquele espaço.

Aqui me “pega” uma vontade de usar um uniforme desse tipo, começo a sentir que a residencia é um periodo no qual estou trabalhando tambem, como eles, na estaçao, tenho minha “função” ali…

o uniforme me faria mais invisível e ao mesmo tempo me insere na estaçao, essa é a minha sensação

penso no azul da arquitetura

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[Transformações]

Como a cidade atravessa o artista? Como o artista pode re-significar a cidade?

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foto: Flavia Junqueira

Minha maior dificuldade/desafio nesse primeiro mês de investigação foi estar sozinha no sítio, a sensação é de insegurança. como uma oscilação de conflitos internos e uma sensação boa de estar provocando algo naquele lugar

Quando um artista propoe algo para um espaço sozinho a reverberaçao da sua açao e a sensaçao de empatia que essa acao causa é bem diferente de quando o publico se depara com uma acao de um grupo…

Nesse primeiro mes de residencia, fazendo o estudo sozinha minha percepçao da reaçao das pessoas (que imagino alcançar pouco da reverberaçao das minhas açoes) é que alguns elementos “validam” as açoes sob o olhar do publico, por exemplo: se alguem esta fotografando é entendivel que quem esta sendo fotografado esteja num estado emocional ou numa configuraçao de corpo divergente da esperada, ou se a pessoa esta “passando mal” ou se ela “é louca” tambem se torna aceitavel a diferença.

Tudo que fuja do esperado gera uma certa ansiedade no publico passante e este tenta logo entender, validar e classificar aquele estranhamento.

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Observar que as pessoas estão com a atenção para além do espaço, para além das pessoas que caminham logo ao lado, ou que trabalham na estacao,  que as pessoas apenas se preocupam em chegar ao seu destino e estabelecem relaçoes funcionais com a estaçao e com a cidade, me traz vontades de atuar nesse ambiente e deslocar esse olhar e essas relaçoes funcionais.

des-programar o olhar, agregar algo novo, uma nova imagem, uma nova percepção e uma nova memória.

Trazer a tona possibilidades de inventar outras formas de convivência e de relação com o espaço da estação e com quem passa.

 

[Trabalhando]

Passo então a pensar em maneiras de criar um momento simples que possa desvelar, a quem quiser observar, algo extraordinário contido dentro do que é considerado comum, dentro do cotidiano; tentar revelar algo estranho/extraordinário que o sítio já possui enquanto potencial, ao invés de tentar levar “algo artístico” para o sítio.

estratégias para causar esses “deslocamentos” da rotina das rampas da estaçao:

grandes ações “espetaculares”;  pequenas ações “invisíveis”;perturbações da normalidade.

 

Agora que tenho meu uniforme estudo minhas funções de “funcionaria perturbadora” que realiza trabalhos estranhos e absurdos.

 

Esses trabalhos estão divididos no trabalho corporal em:

  • Corpo-passagem: caminhadas, danças, ações.
  • Corpo-instalado: corpo se misturando com a arquitetura, propondo imagens.

[o delirio como método]

Dentre as ações já testadas escolho algumas para investigar e insistir:

  • testar se os corrimões estão bem fixos, colocando meu peso contra eles;
  • medir a rampa, o corrimão, as aberturas, etc com o corpo;
  • dar caronas de guarda-chuva, onde não chove;
  • andar de costas, andar lentamente;
  • correr em zigue-zague pegando impulso nos corrimões;
  • instalar o corpo em desarticulação;
  • dança dos esbarrões, nas caminhadas lentas ou pausas no contra-fluxo;
  • dança relacional, gestos e olhares

Meu uniforme está em construção…

SOLUÇOES

– ENCAIXES

– EU TENHO PERMISSAO PARA…….

São as possibilidades que pensei até agora para dar nome a performance e assim para escrever no uniforme.

[Multidão x monstro]

Dentre as falas que ouço durante os estudos é muito comum um discursso-tentativa de classificar e enteder o que é aquela ação, as pessoas se deparam com alguém fazendo algo fora do usual e dizem “é louca”, “está querendo aparecer”, “que medo”, “deve estar passando mal”, “está tudo bem com você moça?”, “você quer sair daí?”

Quando essas falas me atravessam me sinto  um monstro na multidão, minha vontade não me destacar mas sim ser mais um, mas um que tensiona as relações que ali se contrõem, entre pessoas e espaço.

Trago então um trecho de um texto que me ajuda nessa pesquisa de ser “monstro”.

 “O que distingue multidão de monstro é difícil dizer, pois talvez não exista uma diferença tão marcada. Intuitivamente, utilizaria “multidão” para apreender os sujeitos que promoveram e foram promovidos junto com as transformações no Brasil dos últimos anos e utilizaria “monstro” para abordar as subjetividades atuantes nas manifestações dos últimos dias. Avancemos com um texto fundamental no qual Negri analisa o processo constituinte do monstro em dois momentos, sendo que esses dois momentos não são necessariamente subsequentes.

Em um primeiro momento, é possível associar monstro a um “corpo sem órgãos” tal como o definiam Gilles Deleuze e Félix Guattari: o monstro é corpo sem órgãos, pois não tem estrutura definida e não tem funções orgânicas determinadas. É apenas uma intensidade, mas não necessariamente uma intenção. O monstro é a carne da multidão. Não quer dizer que ele seja um estágio anterior à multidão (uma pré-multidão) que, por sua vez, seria um estágio anterior à formação das classes sociais ou formatação dos corpos institucionais.

O monstro não é um estágio pré ou pós qualquer coisa, o monstro está sempre aí: são as possibilidades que resistem e insistem por trás, ao lado, por baixo, por dentro e para fora daquilo que chamamos de realidade. Em um segundo momento, é possível associar monstro ao General Intellect tal como o concebeu MarxGeneral Intellect é a inteligência produtiva e politizada que, entre outras coisas, põe em xeque as figuras do “grande intelectual” e do “grande artista”, pondo em evidência que suas obras são fruto de processos mais coletivos que, contudo, não eliminam as singularidades presentes.

(…)

O monstro é sublime. Nem belo nem feio, nem bom nem mau, nem verdadeiro nem falso, ele desconfigura nossas certezas estéticas e políticas e, nesse movimento, promove simultaneamente angústia e alegria. Contagia. (…)

 A meu ver, o “monstro” não tem nada de autoritário, muito pelo contrário, ele é um terreno de experimentação e de inovação – estético e político – fundamentalmente democrático. O “monstro” é a verdadeira democracia: aquela na qual formas, conteúdos, princípios e processos são indissociáveis. Por que ter medo?”

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Essa relação “monstro X multidão” vai de encontro com a minha sensação de artista querendo intervir/criar uma dança in situ no Terminal, como se eu fosse parte de espaço mais um elemento da multidão que por ali passa, mas nessa intervenção me comportasse como monstro.

[Dando continuidade]

Para a continuidade do projeto penso em criar um “programa” para experimentar esse monstro e além de pensar em o que daquele espaço eu quero revelar para quem passa, me pergunto também o que falta nesse sítio? A busca dessas respostas seria esse “programa” para re-siginificar esse espaço, uma tentativa de revelar/ colocar ali mais poesia.

Esse monstro quer dialogar com a multidão e com seu sítio, as vezes se confundindo com o cotidiano para revelar algo extraordinário, e outras vezes  criando instantes poéticos para confundirem-se como cotidiano, criando assim um acontecimento com potencia suficiente para causar uma pausa, uma alteração da normalidade.

[Resumo]

Tendo então o espaço da estação e sua lógica que acaba por ofuscar olhares e percepções poéticas; essa proposição é uma tentiva de desviar estes olhares, roubando-os por instantes para outras percepções, provocando-os ludicamente para outras possibilidades de apreensão sensível dos acontecimentos. Busca-se despertar no público uma redescoberta e uma reinvenção crítica do automatismo emque ele está inserido.

[Tentar fazer com o corpo o que Manoel faz com a escrita]

trechos de “Uma didática da invenção” de Manoel de Barros:

  1. Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
2.Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

3. Desinventar objetos. O pente, por exemplo.

4. Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.

5. Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

6. Repetir repetir – até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

7. As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças.

8. No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.

9. As coisas não querem mais ser vistas por
pessoas razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul –
Que nem uma criança que você olha de ave.

10. Poesia é voar fora da asa.

Residentes

(Clique para saber mais sobre eles e acessar seus “diários de sítios”)

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