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Maria Clara de Sá

Pesquisadora, dançarina, artista educadora de dança e instrutora do método pilates. Bacharel e licenciada em dança pela Universidade Anhembi Morumbi (2014) e bacharel em ciências jurídicas pela Puc – Campinas (2007), advogada (OAB 279620/SP). Formada em nível técnico de dança pelo Conservatório Carlos Gomes Campinas (DRT 020.986, 2003) e Conservatorio Profesional de Danza em Múrcia, na Espanha (2002). Certificada no método pilates pelo CGPA Pilates (2013) e investigadora de metodologias de ensino que atrelam princípios das abordagens somáticas às práticas de ensino de dança para público diverso (adultos, adolescentes, terceira idade, crianças). Como artista educadora, ministrou aulas no Conservatório Carlos Gomes em Campinas, ofereceu oficinas de dança na Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo e estagiou na Escola Municipal de Iniciação Artística (Emia/SP) e Escola de Dança de São Paulo. Atualmente oferece instruções de pilates no estúdio CGPA Pilates Itaim/SP, ministra oficinas de dança para crianças e desenvolve pesquisas na linguagem da dança cênica contemporânea, integrando a Cia 13 de Dança. email: mcla_sa@hotmail.com

Maria Clara de Sá      

“Árvore-casa: quintal de inter [ações] in natura”

Diário de Sítio

Terceiro mês – janeiro/fevereiro 2015

  m1            Foto de Carmen Morais

 

                                                                                                       CASA

 

                                                            Cuidar                               Usufruir                  Compartilhar

 

– Pensa [Ação] conclusiva

É chegado o momento de sintetizar, ponderar, registrar e rememorar, sem nunca concluir, o projeto de residência artística Situ[Ações] e as inesquecíveis passagens em minha morada verde no parque. Seguir?

Foram três intensos meses de mergulho na possibilidade de criação e concepção de ações de dança in situ, regidas por anseios e vontades artísticas, poéticas e de entendimento pleno de um ser/fazer dança mais atuante, por vezes desconcertante, acessível e “in processa [ação]”… lugar a lugar, situação a situação.

“A dança em permanente estar!”.

Pois sim. O que se viu nesta última etapa de pesquisa, foi de fato, um estar e permanecer tal qual postulei insistentemente em: “A dança em permanente esta!”; só que, curiosamente desta vez, o caráter de pensamento artístico-metafórico da expressão ganhou contornos concretos, no meu próprio corpo in [dança], in [ação].

A questão central que reverbera de toda essa jornada, não mais latente que tantas outras, é de como as noções e implicações do uso, percepção e ação do tempo se fizeram (e se fazem o tempo todo! rs) presentes em meu desbravar artístico e neste caso,  in situ.

Um projeto curto, rápido, com “tempo apertado” e que acabou por elucidar uma proposição onde o tempo esgarçado, calmo e desfrutável do verde acolher lar-casa, trouxe, em si, as imagens possíveis da poesia urbana no parque.

Este mesmo tempo comumente tido como raro, caro e abafado dentro dos dias cronologicamente marcados e produzidos por nós, foi levado a um limite antagônico de simplesmente: “deixar passar”, “estar”, in natura. Posso dizer que lidar com essas variáveis e concebê-las no que há de mais concreto, o meu próprio corpo, foi extremamente instigador, desafiador e inacabado, por certo.

Do mesmo modo, perceber que o sítio ou lugar onde este corpo age, se instala e se projeta conduz e/ou modifica seu estado e seu uso do tempo, naturalmente falando, trouxe a tona e reforçou horizontes pensantes, dançantes e artísticos que insistem em apontar para a temática da relativização do tempo, como reflexo do movimento.

O signo Árvore-casa, concebido como sendo o sitio projetor de sensações do lar ou moradia, propriamente dito, trouxe então este uso dilatado do tempo em meu estar e ali permanecer, como mecanismo de ação primordial dentro da proposta in situ.

Em consequência, se assim posso dizer, me vi atravessada por questões não só de caráter artístico-estético-poético, conforme descreverei na sequência, como muito pertinentes ao momento histórico-social de crise de recursos naturais em que vivemos, sendo que me pus a refletir:

Quanta ironia e subversão de valores nos tempos de carência de água e energia, encararmos as “Árvores-casa” da cidade, verdadeiras garantidoras de nossas moradias de fato, como vilãs e destruidoras, quando, inadvertidamente, caem, morrem e devastam a lógica urbanística (já inexistente, é certo! da cidade? Tudo em razão da falta de atenção, cuidado e prevenção à sua presença ancestral, e diga-se, VITAL?

Pois é.

Minha morada verde no parque transcendendo as fronteiras da arte.

Dança contextual, in [vida]. Na cidade.

Que a experiência artística também possa de alguma forma transformar e clarear caminhos por vezes obscuros e perversos de interpretação da realidade, como mais uma via de acesso possível.

– Processo de Finaliz [Ação]

 

Partindo e recordando as provocações registradas no relato do mês anterior, é certo que me propusera à instalação do corpo na Árvore-casa tornando aquele espaço, imageticamente falando, meu verdadeiro lar e recanto de acolhimento.

Antes mesmo de partir para a ação, em um diálogo com aquela que até hoje é, e possivelmente será eternamente o grande símbolo de lar-casa para mim, mamãe, pude refletir e pensar nos três grandes valores que este universo me, em conversa, nos, sugere: cuidado (cuidar), usufruto (usufruir) e partilha (partilhar).

Ter para onde voltar, pousar, repousar, preservar e vivenciar consigo e com os outros aquilo que de mais íntimo e pessoal há em nós, só em nosso lar-casa. E foi ali. Na cidade de São Paulo, no parque da Água Branca, na árvore figueira encostada ao parque infantil com brinquedos de madeira e lagoinha com fonte, o lugar onde encontrei meu sentido de lar-casa em seus valores de cuidar, usufruir e compartilhar “in natura”.

Em um primeiro momento, experimentei estar e permanecer na Árvore-casa levando alguns poucos “apetrechos” pertinentes à minha estadia ali e simplesmente permaneci, horas e horas, em distintos dias, cuidando, usufruindo e compartilhando de minha morada verde.

Foram encontros que a mim reverberaram de forma profunda e quase transcendental. O bem estar de pertencer à árvore, em sua arquitetura de nichos, vazios, raízes, crateras era tão grande, que por vezes perdi a dimensão de tempo, espaço e de meu próprio corpo instalado. Assim, não só houve ocasiões em que me senti moradora daquele habitat, como muitas vezes me senti parte integrante, corpo-raíz daquela potência nativa. Estar ali já era suficientemente forte; por certo que se alguém mais quisesse experimentar o ninho de acolhimento, seria bem vindo.

Nesse sentido, cito o artigo de Dione Veiga Vieira, constante no endereço eletrônico, http://ntrns.tumblr.com/post/65553275591/a-projecao-do-corpo-no-contexto-da-obra-uma, e que menciona a obra de Lygia Clark: “A Casa é o Corpo: Labirinto”, realizada no MAM-RJ e na Bienal de Veneza, em 1968. A referida obra traz a tona as questões do corpo em instalação, referendando-as, ainda, em consonância com o valor de abrigo-casa:  “Trata-se de um abrigo

poético onde habitar é equivalente do comunicar” (Clark in MILLIET, Maria Alice. 1992,”Lygia Clark: obra-trajeto”. São Paulo, EDUSP).

Assim, consigo aproximar tal temática â minha pesquisa e dizer que a utilização da imagem “casa” enquanto abrigo, no meu caso, abrigo verde, reflete também sobre as questões ambivalentes de corpo indiividual/social e espaço público/privado, sendo estas polaridades muito simbólicas e pertinente dentro da arte contemporânea.

Isso porque, conforme menciona Dione:

“a casa é o ambiente em que se processam os primeiros sentimentos de coletividade; o lugar onde se estruturam modelos de sociedade baseados na organização familiar. Constitui o espaço fundamental das experiências socializantes, e como tal estabelece uma metáfora poderosa do “corpo coletivo” ou, do “corpo social”.

Portanto, tenho que a Situ (ação) Árvore-casa, traga em seu bojo, muitas proposições de caráter sócio-político-cultural, a serem destrinchadas e ampliadas, oportunamente.

Voltando à descrição do processo, em uma memorável ida, ainda quando me cercava de alguns aparatos materiais, fui abordada e acabei enfatizando a vivência do valor partilha com crianças que ali rondavam e que prontamente se sentiram igualmente acolhidas pela Árvore-casa, cuidando-lhe, usufruindo e compartilhando de sua presença. Fatalmente com a poderosa e arrebatadora via do “brincar”.

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 A ação se expandiu e um adulto passante partilhou de nosso usufruir do lar-casa, igualmente.

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Em outra oportunidade, a abordagem de uma mulher com seu filho foi bastante emocionante e pôde ser coroada pelo agradecimento da mesma quanto à imagem advinda do lar-casa. Disse que a apreciação de meu “bem estar na árvore” lhe proporcionou a decisão e escolha de mudança de moradia. Quando retornasse a Joinville, sua cidade de residência, anteciparia a mudança para a casa nova. Vida nova. Expectativas de novas formas de acolhimento.

Assim, após esses e tantos outros intercâmbios de falas, vivências e sensações com as pessoas, levantei a possibilidade de enxugar ainda mais minha ação (ações). Tive o respaldo e a colaboração das queridas Thais Ushirobira e Lígia Rizzo, que me acompanharam algumas vezes ao sítio e opinaram a respeito de tudo, além compartilharem um delicioso cafezinho preparado com quitutes de fazendo em fogão à lenha. Mais uma das maravilhas dos arredores de minha Árvore-casa.

Passei a dilatar minha presença e permanência no lar-casa, experimentando um jogo de depósito do meu corpo e de miniaturas de casinhas de madeira em nichos da árvore, procurando o descanso, a contemplação, o deleite. Sem pressa!

 Chegava à Árvore-casa portando as casinhas em uma e depois duas cestas de palha cobertas por tecidos marrons que deixava estendidos ao redor da árvore, e iniciava uma dinâmica de arrumação e “re-arrumação” do lar-casa pela distribuição das casinhas, juntamente ao repouso e interação do meu corpo ali.

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Por longas horas e dando largas pausas de camuflagem e recondução do jogo de casinhas, tornei esta ação, o resultado e proposição central da apresentação do meu estudo e pesquisa, postulando: a vida na Árvore-casa e a apreciação do quintal de inter (ações) advindas dali.

Confesso que nas duas últimas visitas as quais incluo o dia da apresentação ou partilha com hora marcada, consagrei o desejo inicial que tinha de entrar propriamente “dentro da árvore”. Com a benção dos seres da flora e com a boa vontade, respeito, parceria e espírito artístico do guarda responsável por aquele ambiente, pude literalmente me instalar no seio da Árvore-casa.

E lá permaneci. Alta. Acalentada. Sentido sons, cheiros, temperaturas e os coabitantes de minha morada verde no parque.

 

– Balanço [Ação]: como foi, como será?

Pois bem.

Fazendo um balanço e enlace final, posso dizer que encerro o projeto de residência artística embebecida de sensações, poéticas, questionamentos, desejos, e reconheço, a partir desta vivência, a importante porta de entrada que as proposições in situ/site-specific representam para a dança, como potência artística transformadora.

Muito além de ter como pressuposto a criação para um sítio específico, proporcionando ao artista-criador o estudo, investigação e entendimento da complexidade que as relações espaciais e arquitetônicas sugerem e pedem, em um determinado espaço, de fato pude comprovar que as proposições dessa natureza se atrevem a questionar tanto para o pesquisador, quanto para o público, passante, fruidor, quais são os limites da dança ou do uso do corpo no espaço. O que é dança? O que é apreciável? Para que serve arte? Precisamos busca-la, reconhece-la, adora-la? Então, nomeá -la?

Como relato de experiência viva e vivida pude notar neste processo, que eu mesma fui derrubando certas pré-formatações e intenções e percebi que com o passar do tempo, preferi simplificar as ações e torna-las mais despretensiosas de comunicar algo específico e, sobretudo, algo que atrelasse à noção massificada que se tem de dança, na maioria das vezes.

Confesso que pensar em intervir pela via do corpo em espaços urbanos cotidianos pré-elegidos e que, em tese, não estão preparados para receber este corpo e os acontecimentos que a partir dele se originam, é indiscutivelmente uma possibilidade a ser intensificada dentro do cenário de dança da atualidade. Ainda em ascensão e cheio de limites para serem estudados. Prato cheio!

Os feedbacks em grande parte orais e todos aqueles visuais advindos dos frequentadores e passantes do parque e encarados por mim durante os três meses de dança-intervenção, formaram uma mandala de imagens, indo das mais absurdas (que diabos aquela moça faz e fica na árvore? Estaria morta, dormindo, descansando, meditando, cuidando, vendendo miniatura de casinhas?, etc) às mais sonhadoras e poéticas (essa moça parece um esquimó em um iglu, podemos morar aí também? Que árvore e lugar mais irresistível você escolheu para estar…). As guardarei em registros de memória e incentivo à ocupação artística na cidade.

Não posso deixar de reconhecer que as trocas promovidas e conduzidas pelas integrantes do Núcleo Aqui Mesmo, Carmen Morais, Thais Ushirobira, Lígia Rizzo e seus colaboradores, Anny Perri e Pedro Ivo foram alicerces fundamentais nessa jornada inacabada.

Exalto a abertura e confiança mutua estabelecida entre todos e a rara autonomia concedida aos residentes, que foram respeitados em seus desafios e vontades pessoais, sem quaisquer juízos de valor. Nunca. Muito pelo contrário. Pude notar que a heterogeneidade no perfil das pesquisas e participantes foi valorizada e consistiu em um eixo fundamental de nosso processo. Raridade e demonstração de espírito artístico e democrático como deve ser.   Muito grata por tudo!

Igualmente a possibilidade de apreciar o processo de criação de outros quatro colegas e artistas, Pedro Panuela, Luiza Meira, Nina Giovelli e Lívia Rios, em um ambiente de parcerias, questionamentos e muita diversão. Que nossos caminhos se cruzem entre muitas avenidas da Pauliceia desvairada, queridos!

Me despeço, então, citando novamente um trecho da música “Parque da Água Branca”, a qual peço licença para modificar em um trecho contextualizando minhas vivências e com as imagens; uma de uma amiga artista plástica, sobre mim, e outra, minha memória de árvore, em mim.

No Parque da Água Branca

A esperança que a gente traz

Na flor que não se arranca

Na árvore mansa, que se deixou em paz

Entre as lembranças que trago

Os chorões à beira do lago

O pombal, o campo, o jardim

Eu lendo o jornal na calçada

– EU MORANDO EM MINHA ÁRVORE-CASA

E o riso da criançada

Brincando ali perto de mim

Mas, um dia de sol quente

Olhando os prédios enfrente

E a cidade doida a crescer

Pensei na calma de outrora

Nessa loucura de agora

Um dia como há de ser?

                                        Paulo Artur Mendes Pupo Nogueira 08/10/1927 – 02/08/2003’

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                                                                                         Imagem de Gabriela Cais Burdmann

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Segundo mês – dezembro 2014/janeiro 2015

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– Ressignific [Ação]: re-atando e re-encontrando sentidos e caminhos.

Passadas as primeiras experimentações e inaugural mês de pesquisa, culminamos na segunda quinzena do mês de dezembro e na situação de pausa e respiro temporal para as festividades e rituais de final/passagem de ano. Por certo muito bem vindas e desejadas.

Viva 2015!

Posso dizer que não me afastei completamente de minha morada verde no parque, entretanto me socorri desta deixa para igualmente respirar e reorientar minhas buscas e anseios, mantendo o espírito propositor e ainda motivada pela máxima: “a dança em permanente estar”.

Recordando as últimas sensações e registros de inquietudes, é certo que me propusera a pensar algumas formas e ações que refletissem na ocupação da Árvore-casa, uma vez que considerei, durante minhas visitas, que a atração dos “olhares, estares e sentirem” a vida no parque ali acerca, o ponto de vista mais estimulante e poético do presente pensar/fazer dança.

Igualmente, a questão relacional se estabeleceu como um eixo de referência, não só sob a perspectiva de atenção ou não a um determinado público fruidor e possível atuante da proposição (sobretudo pelo corte da faixa etária – crianças), como quanto aos mecanismos estético-poéticos e até mesmo metodológicos a serem explorados dentro das ações. Tudo em busca do alcance da magnitude à ocupação da Árvore-casa.

 Como então?

– Elucid [Ações]

Conforme mencionei anteriormente, me permiti o deleite de observação do sítio durante algumas visitas antes do final do ano e me atrevi, antes mesmo de pensar nas reais possibilidades logísticas, a idealizar uma instalação na acolhedora Árvore-casa.

 Confesso que minha motivação partiu muito da reflexão acerca do enunciado trazido pelo artista plástico Hélio Oiticica de “poetizar o urbano”, quando da experiência de “Parangolés”, e me pus a pensar então sobre os limites e possibilidades diante da interdependência entre os sujeitos envolvidos na experiência artística. A meu ver, as fronteiras entre o que seja a obra ou a experiência artística e o lugar no qual esta experiência se funda, praticamente inexistem.

Ilustrativamente, cito a passagem na coluna de Jardel Dias Cavalcantti, em menção a Oiticica, que diz: “o objetivo da participação é dar ao homem, ao individuo de hoje, a possibilidade de “experimentar a criação”, de descobrir pela participação, esta de diversas ordens, algo que para ele possua significado”. (in ttp://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=856&titulo=Parangole:_anti-obra_de_Helio_Oiticica).

Voltando à idealização de minha produção em instalação, demonstro a seguir o mapeamento-esboço que confeccionei como ponto de partida.

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 Tenho que a imagem em desenho que vinculei no relato do mês anterior, retirada do artigo de Luana Saturnino Tvardovskas e que retrata a performance “Ninhohumano” de Ana Miguel e Claudia Hersz, vencedora do prêmio Interferências Urbanas, no Rio de Janeiro, em 2008, me inspirou bastante e igualmente provocou esse desejo de me instalar na Árvore-casa.

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  Fonte: wwwtanianavarroswain.com.br/labrys/labrys17/arte/luana.htm

Ainda, mesmo que em contextos bem distintos, outras referências imagéticas me provocaram nesta etapa de desdobramento.

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Foto: Lílian Marques/ G1

– Em process [Ação]

 

A partir daí, resolvi procurar a pessoa responsável pela administração do parque, uma vez que para testar quaisquer dessas ideias (que admito, em rascunho já eram ousadas), necessitaria de alguma anuência mais formal.

Como já era de se esperar, houve a total negação de iniciativas e interferências na árvore e me senti temerosa até mesmo pela limitação da pesquisa anterior. Trago esse depoimento como forma de problematizar e alertar a dificuldade que os artistas de dança site-specific/in situ encontram muitas vezes em ocupar determinados espaços públicos. Mesmo que haja suporte legal que nos conceda alguns direitos (vide decreto  Decreto Municipal  nº 52.504, de 19 de julho de 2011), a burocracia interna de alguns sítios, bem como o próprio preconceito das pessoas, “habitués” dos locais, é muito comum e responsável por “atravancar” algumas propostas.  Nas palavras da artista do Núcleo Aqui Mesmo, Thais Ushirobira, “essa é uma das partes mais complexas do trabalho site-specific, o estabelecimento das moradas e das vizinhanças”.

Independentemente disso, considerei repensar a ideia da instalação na árvore, já que conclui ser uma empreitada muito trabalhosa e ousada para o início de pesquisa a que a residência se propõe. Quem sabe não colherei esses frutos mais adiante, em outra morada verde da cidade…

Assim, segui pensando qual seria o fio condutor que me levaria à sensação da Árvore-casa expandida, e não necessariamente instalada, sendo que foi a partir de mais uma vivência do corpo, norteada pelos dispositivos testados no primeiro mês de pesquisa e agora, supervisionada por Thais Ushirobira, que destrinchei novos caminhos.

Percebi que o desejo de trazer para minha morada um território de descanso, repouso, contemplação e usufruto da natureza e do “estar” em literal contato com ela, bem como com o que o parque possui de mais genuíno – “mix” de vida rural e urbana – cresceu e foi reforçado pela percepção da “ignorância” do canto da Árvore-casa na maioria das vezes.

Por que não tornar latente a presença da morada verde que irradia bem estar àqueles que ali circundam e que talvez não consigam/possam acessar?

Como registro de beleza e encantamento na ocasião do ensaio fotográfico produzido pelo Núcleo e conduzido por Lígia Rizzo e Any Perri, me instigam as surpresas que a cada “estada” e descoberta de ações na árvore (movimentos, camuflagens, encaixes em pausa, entrelaçamentos, permanência) em mim reverberam e aos passantes/frequentadores que eventualmente ali querem estar, também.

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Portanto, neste momento me vejo tentada a aprofundar o sentido deste início de pesquisa, na concepção estético-poético-afetiva da Árvore-casa que mais contexto teve para mim, subjetivamente falando, e que devo, por certo, me apropriar mais.

O que e como seria tornar a Árvore-casa de fato o meu nicho de aconchego, encontros, respiros, memórias e sonhos?

 

Como seria permanecer ali durante mais tempo? Me instalando, vivendo e ficando em seu contato, imageticamente, como em um lar?

 

Quais sensações isso me provocaria e então, haveria a necessidade ou a vontade de trazer a tona algum elemento figurativo que me apoiasse neste “estar in natura”?

 

Pensando ainda na frase de Oiticica, é certo que a participação seja bem vinda, porém o que seria uma legítima participação no caso da proposta Árvore-casa? (“pela participação, esta de diversas ordens, algo que para ele possua significado”. (in ttp://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=856&titulo=Parangole:_anti-obra_de_Helio_Oiticica).

Sigo em frente em minha morada verde.

Até breve.

Maria Clara de Sá      

 

“Árvore-casa: quintal do brincar-dançar in natura”

Diário de Sítio

Primeiro mês – novembro /dezembro 2014

 

Parque da Água Branca

Avenida Francisco Matarazzo, 455 – Perdizes

São Paulo – SP

05015-000

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Fonte: googlemaps

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  Fonte: karlacunha.com.br

                – Anseios e devaneios

“A dança em permanente estar!”.

Foi a partir desta afirmação e convicção, que por vezes ainda tomo como indagação e que me move como artista e pessoa nos últimos tempos, que pude me aproximar e interessar pela proposta e projeto de residência situ [Ações] do Núcleo Aqui Mesmo.

Acredito que as proposições de dança in situ/site-specific sejam um gênero dentro do cenário contemporâneo extremamente alinhado com as noções deste “fazer dança” mais preocupado em ocupar, relacionar e estar, de fato, presente.

A concepção da matriz da pesquisa de dança partindo do espaço de acontecimento das ações, me instiga a promover uma arte mais engajada e próxima ao fruidor-transeunte comum da metrópole, provocando-o e contextualizando-o a sensações e visões estético-poéticas da realidade, papel, ao meu ver, fundamental da arte e do artista.

Portanto, trazer a dança para a cidade, tomando-a em sua arquitetura, constituição, valores culturais e mecanismos de ocupação, na busca de subverter, enfatizar ou propor novas formas de ação e situ [Ação], com o escopo da arte e poesia, é algo que me motiva e me impulsiona a este “permanente estar em dança”.

                – O sítio: escolhas e contextos

            A contradição urbanística do concreto e arborizado, bem como o encantamento vindo da infância pela ocupação de lugares verdes e pela simplicidade e deslocamento de tempo-espaço de parques, hortos, praças e jardins, me fez encontrar neste sítio, o contexto ideal de investigação dança in situ.

            Inaugurado em 1929, o parque, que funciona diariamente, das 6h às 22h, possui várias opções de acesso. A área atual é de quase 137 mil metros quadrados, pouco mais de 79 mil de área verde, 27 mil edificada e 30 mil de área pavimentada (ruas, alamedas e pátios). Não se trata de uma reserva de mata nativa, mas um parque totalmente implantado, desde a construção até a vegetação.

            O número aproximado de espécies arbóreas adultas é de três mil.
Há ainda diversas espécies utilizadas para fins paisagísticos e de alimentação para animais. Hoje, o Parque recebe um público composto não apenas por moradores do entorno, como também de diversas regiões, que ali praticam atividades físicas, participam de cursos e se deliciam com a paisagem e o caráter rural que inspira a área.

A preocupação com o desenvolvimento das pesquisas agropecuárias e com o lazer – manteve-se por meio dos trabalhos desenvolvidos pelas entidades e órgãos nele instalados. Novas demandas sociais trouxeram outras atividades, como programas com a terceira idade e portadores de deficiências, educação para uso sustentável dos recursos naturais, dentre outros Em 1996, o Parque foi tombado como bem cultural, histórico, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat). Em 2004 foi tombado também pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP.

Os prédios em estilo normando, projetados por Mário Whately, e os vitrais do portal da entrada estilo art decó, foram desenhados por Antonio Gomide e datados de 1935 e são atrativos à parte. (informações retiradas do site: http://parqueaguabranca.sp.gov.br/o-parque/)

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Fonte: http://www.itdesapego.com/wp-content/uploads/2013/11/agua-branca-park-940-wplok.jpg

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Fonte:http://4.bp.blogspot.com/-lbudE8qvOzY/T5SvBssXRiI/AAAAAAAAAAk/y_Nb6kxEnHk/s1600/100_0445.JPG

Música: ”Parque da Água Branca”

 

 

Esse Bosque tão amigo

Pedaço de São Paulo antigo

Na saída para o interior

É um pouco de poesia

Na luta do dia a dia

Em busca de paz e calor

Em meio a tanta beleza

As cores da natureza

E o canto livre dos pardais

Jovens casais de namorados

Arriscam carinhos ousados

Na sombra dos pinherais

 

No Parque da Água Branca

A esperança que a gente traz

Na flor que não se arranca

Na árvore mansa, que se deixou em paz

Entre as lembranças que trago

Os chorões à beira do lago

O pombal, o campo, o jardim

Eu lendo o jornal na calçada

E o riso da criançada

Brincando ali perto de mim

Mas, um dia de sol quente

Olhando os prédios enfrente

E a cidade doida a crescer

Pensei na calma de outrora

Nessa loucura de agora

Um dia como há de ser?

No Parque da Água Branca

A esperança que a gente traz

Na flor que não se arranca

Na árvore mansa, que se deixou em paz

Paulo Artur Mendes Pupo Nogueira 08/10/1927 – 02/08/2003

 – Inspir[Ações]

Pensar e sentir São Paulo muito além de sua imagem estigmatizada de “selva de pedras”.  Encontrar e reencontrar um possível sentido da cidade – do urbano – em um nicho cujo tempo se dá de forma mais dilatada e onde as pessoas se encontram umas com as outras, consigo mesmas e abrem espaço, nem que seja no simples ato de passagem, de respirar e viver as cores da natureza, em meio ao acolhimento verde, colorido, sonoro e simples da vida no parque.

Bem ali. Parque Doutor Fernando Costa – hoje, Parque da Água Branca. Acolhida. Recebida. Disposta a visitar, frequentar e transformar um sítio que, como diz a canção, já é “um pouco de poesia, na luta do dia a dia, em busca de paz e calor”.

Entre a forte presença de majestosas e incontáveis espécies de flora, de aves cantarolantes e passantes, da água brotando de bicas e fontes, da luz solar que entremeia passagens e sombras, pude ir me envolvendo por este recanto verde no meio da cidade, onde o riso gostoso das crianças, os animados bate-papos de amigos, a vida da fauna e tempo esgarçado, eram disseminados pela dinâmica quase sempre inusitada de pessoas que, assim como eu, buscavam identificar-se em ações e acessos àquele contexto.

Observei e ocupei cada espaço do parque, em diferentes dias e horários, de forma a captar um pouco de suas singularidades e me permitindo ao arrebatamento.

Eis que ele veio. Prontamente.

Nas palavras da colega residente, Livia Rios, “existe aquele ambiente que parece nos escolher, e somos convocados a estar nele, por motivos conscientes e inconscientes”.

 Como já disse anteriormente, no meu caso, a memória de infância, desta vez pela coleção de sementes e admiração e amor por um pai agrônomo, me levaram ao puro encantamento pela figueira exuberante, encostada a lagoinha com fonte e ao parque infantil. Contemplá-la e o que ocorria em seu entorno me fizeram sonhar e desejar propor algumas possibilidades de interação corpo-espaço-tempo ali.

     Figueira-brava (ordem: Rosales, família: Moraceae, gênero: Ficus)

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Arredores e cercanias

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Experiment[Ações]

Antes mesmo de testar quaisquer ações/interações naquele habitat, me permiti namorar a figueira, a qual, ou melhor dizendo, a quem pude chamar de Árvore-Casa. “A árvore é um ninho desde que um grande sonhador nela se esconda” [1].

Logo de cara, percebi que sua localização naquele espaço do parque tornava o ambiente à volta um grande quintal de encontros, brincadeiras, descanso e práticas corporais. Sempre que chegava ali, sentia o desejo imenso de estar próxima a ela, me instalando, relacionando, compondo com suas formas, nichos e propriedades naturais (raízes, galhos, tronco, folhas caídas).

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Fonte: http://wwwtanianavarroswain.com.br

Por mais que as pessoas, frequentadores ou passantes muitas vezes não interagissem propriamente com a Árvore-Casa, sentiam naquele sítio, tal como eu, um bem estar de acolhimento e liberdade de ação, conforme, inclusive, puderam me narrar.

– Gosto do barulho da água, pássaros e ventinho no rosto.

– Aqui os brinquedos são mais naturais.

– Posso correr a vontade.

– Trago os meus filhos, mas também me distraio.

Como primeira camada de exploração, decidi habitar e me relacionar com a espécie arborística que tanto me atraia, e corporalmente testei algumas propostas as quais chamei de “Árvore em pulsar: rede relacional” e que consistiram em:

  • “lar de contemplação”: integração do corpo à árvore como forma de emoldurá-lo e às vezes camuflá-lo nela;
  • “apoios de entrelaçamento em torno do tronco da árvore”: improvisação a partir de movimentos translativos e de contra-peso do corpo em relação ao tronco da árvore, incluindo pausas ativas);
  • “raízes corporais”: proposta de trazer o corpo como uma continuidade das raízes da árvore, enfatizando o uso das extremidades;
  • “giros e espirais orgânicos”: expulsão do corpo em contato com a árvore, como um fruto quando dela se desapega.

 As propostas foram se desdobando em várias etapas e episódios de acontecimento que ocorriam nem todos de uma só vez e ganharam mais potência e dispositivos com o passar do tempo.

O feedback de passantes e frequentadores ocorreu algumas vezes (O que a moça está fazendo na árvore? Já li a respeito de como os orientais abraçam as árvores. Que coisa doida! Legal! Nunca pensei que daria pra fazer isso com a árvore), mas a dificuldade de percepção e compreensão dos fenômenos produzidos no entorno, residiu no fato de eu estar sozinha no sítio, na maioria das vezes.

Numa segunda camada de investigação/ação e após o intercâmbio de sensações e ideias com a colega residente, Livia Rios, vizinha de cercanias, prossegui na ideia da Árvore-Casa partindo para a ocupação do parquinho infantil nela apegado, uma vez que ele se apresentava como um quintal de possibilidades e uma interessante ferramenta de estar in (contato).

E estive por várias vezes.

Ocupando e re-significando o brincar-dançar nos brinquedos já formatados para serem utilizados de determinadas maneiras pelas crianças. Foram experiências preciosas junto aos pequenos, na medida em que o acesso relacional das proposições de dança in situ, site specific emergiram com força em minha investigação e anseio artístico de proposições.

Como é sentir o chão daquele espaço estando descalço?

 

O toque das folhas secas, galhos e pedras incomodam ou nos libertam?

 

Como criar possibilidades de ocupação do corpo em brinquedos previamente formatados?

 

O que o sítio nos oferece além do que os olhos vêem?

Assim, fui trazendo a atenção do brincar-dançar para a Árvore-casa nas últimas visitas e vi neste ato, uma possibilidade de proposição bem interessante, na medida em que percebi que ressignificar sua presença majestosa e por vezes apenas “emolduradora” do quintal (parque infantil e arredores), como partícipe e protagonista da interação corpo-espaço-tempo, um mote poético carregado de memórias e boas surpresas.

Por que não ocupar, instalar e dialogar, corpo-tempo-espaço na própria Árvore-casa?

 MC 12 MC 13 MC 14 MC 15 MC 16

Inquiet[Ações]

Ao término desta etapa inaugural de pesquisa e que a todo tempo tem sido mediada pelas integrantes do Núcleo Aqui Mesmo, registramos com fotos a integração das duas camadas de ação acima descritas e, a partir da orientação e reflexão conjunta de nossa equipe, pude pré-definir os caminhos para os quais pretendo seguir daqui em diante:

Como então tornar a Árvore-Casa um sítio de ocupação dos frequentadores/habitantes do parque, assim como já é para mim?

 

Haveria um anseio relacional de exclusividade para o público infantil?

 

Se sim ou não, quais os mecanismos de atração desses olhares para o contato espaço-temporal com a árvore propriamente dita, já que percebo ser e estar nela, a grande proposição dançante capaz de transformar e agir sobre este sítio?

Restam aí as ações e divagações dessa proposição em formação.

Cidade no parque.

 Visando o corpo dançante como parte compositiva e componente deste espaço urbano.

 “A dança em permanente estar!”.

Nas palavras de Ana Terra[2], promover a “arte relacional” ou “dança contextual” (ênfase nas relações entre performer/dançarino, público-transeunte e espaço-tempo) até mesmo como forma de educação estética da coletividade.

“O real dever do artista é salvar o sonho” [3] e a cidade está de portas abertas para que o façamos!

[1] TVARDOVSKAS, Luana Saturnino. Autobiografia nas artes visuais: feminismos e reconfigurações da intimidade”, in wwwtanianavarroswain.com.br, apud BACHELARD. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

[2] Socióloga formada pela FFLECH – USP, Mestre em Artes pelo IA – UNICAMP, e Doutora pela Faculdade de Educação da UNICAMP. Atuando como dançarina-coreógrafa desde 1987, desenvolveu trabalhos de criação coreográfica, preparação corporal e direção cênica. Atualmente dedica-se artisticamente ao desenvolvimento de cursos e oficinas do projeto “Por que Lygia Clark? (tema de seu doutoramento) com estudantes e profissionais da dança, além de colaborar com grupos e companhias quanto à orientação de pesquisa de dança.

[3] Autoria incerta. REALIZAÇÃO: Rede Mundial de Artistas em Aliança Instituto Polis; Coordenação Editorial Hamilton Faria e Pedro Garcia Carta de Responsabilidades Humanas Ísis de Palma; Fundação para a Progresso Humano (França) Gustavo Marin; APOIO Fondation Charles-Lèopold Mayer pour le Progrès de l´Homme . FPH (Paris).

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