Luiza Meira Alves / Voltar

Foto: Jônia Guimarães

Foto: Jônia Guimarães

Luiza Meira Alves

É artista da dança, tradutora e professora. Graduada em Letras pela UNESP (2010). Atualmente cursa o segundo semestre de Especialização na Técnica Klauss Vianna pela PUC-SP. Após dois semestres de intercâmbio em dança na Université Charles-de-Gaulle (Lille/França), onde aprofundou seus estudos e práticas artísticas, regressou ao Brasil com especial interesse na dança contextual e nas relações corpo-espaço, tendo a Nova Dança e a Técnica Klauss Vianna como lugares de pesquisa do corpo contemporâneo. Seus últimos trabalhos são INcertitude (projeto de vídeo-dança), InstalAÇÃO cirúrgica(instalação performática realizada no Centro Cultural Mundo Novo), Estudo sobre inquietudes e Outros ensaios.

 

 

 

L1Luiza Meira

[W]HOLE_110 passos

Diário de sítio

Terceiro mês – janeiro/fevereiro 2015

 

Este terceiro mês foi aquele dos sabores diversos. Após encontrar os núcleos de ação com os quais trabalhar, tive a oportunidade de degustá-los com diferentes temperos. Também aquele gosto de quase-fim, que na verdade é um quase-começo.

A princípio, pensava em testar os núcleos de ação numa determinada ordem, organizando as transições de um para outro. Mas frequentemente esse “modo de fazer” me dava a impressão de um enrijecimento. Se a organização que o túnel me propõe pauta-se por si só na gambiarra do tempo, do espaço, das ocupações, que lógica comunicativa haveria numa proposta estruturada e fechada? Optei por seguir a correnteza que perfila aquele sítio e fazer de minhas ações e sua tecitura também gambiarra: um corpo que se agarra aqui e ali, como pode, quando calhar; simultaneamente atento e entregue.

Vale muito mencionar algumas constatações sobre o estudo no/do/com o túnel: (1) apesar de interessante, a ideia inicial com relação aos marreteiros pouco se concretizou, daí que minha relação de vizinhança com eles (ou boa parte) foi sim amigável, de respeito, mas sem uma abordagem mais direta e dialógica (no sentido que eu dizia, de tê-los como interlocutores de um acontecimento mais que coadjuvantes): como cada um deles, estou ali a trabalho, mas não somos companheiros de trabalho pelo motivo claro dos papéis desempenhados ali naquele microcosmo; o que me leva a (2): ali sou “a que mexe com teatro”, “com dança”, que, em muitos casos, apenas se tolera pelo caráter público do espaço (acho que já falei sobre isso), mas que melhor seria se ali não estivesse; o que me impediu (3) – ou constrangeu – a realização de algumas ações pensadas de início, como “uma dança trocada-oferecida”, em que eu trocava uma dança por uma história ligada ao túnel; isoladamente (4), o fato de estar ali sozinha a propor imagens, leituras, ações parece não legitimar o “lugar da arte” (que lugar é esse????). Inúmeras vezes me questionava sobre o foco que eu queria lançar ali e senti falta mesmo de outros “iguais a mim” que dessem potência e mais voz às questões ali colocadas, para que não fosse eu sempre a “louca, “doida”, “doente”, “drogada”. (Acho curioso pensar nos usos do corpo nos espaços públicos, um corpo que se identifica como doente frente a qualquer desvio de conduta inscrito nas etiquetas. Regra geral, os comentários de quem olha levam o corpo para um lugar da patologia); o que não deixa de se ligar a (5) o uso da violência quando um se depara com esse “ser em estado não identificável”: quase um OVNI!!! As pessoas partem para cima daquilo que é inclassificável. E o partir para cima se materializa ali embaixo de múltiplas formas: seja pelo olhar (de desprezo, de desgosto, de indignação), pela palavra, uma reação corporal. Sim, algumas vezes servi de bode expiatório ali: do inominável, do incompreensível, do dia cheio, do chefe filho da puta, da vida dura, do trem lotado etc etc etc.

Quando me vi nessa situação foi que o espelho apareceu. Ele continua. Agora menos calado-choroso, mais provocativo-impositivo. Ele brinca com o olhar alheio; tenta reverter o jogo para dar um respiro. Digo isso porque logo que ele surgiu, sua presença era muito inquisidora. Era o meu tapa na cara alheia. Vivi e deixei isso passar, um algo que ainda reaparece vez ou outra, mas com mais leveza. Porque o túnel não se resume ao que se presume: lugar pesado, ambiente carregado e o que segue… Há também olhares ávidos, curiosos, abertos. Há um carecer muito potente ali. Assim como um permitir.

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Foto: Maria Clara de Sá

Outro núcleo de ação que num dado momento me interessou muito explorar foi o que primeiro chamei “com-tato: superfícies” e que agora prefiro pensar mais como “encontro de peles” ou algo do tipo: antes se propunha mais como um mapeamento sensorial das superfícies do túnel, hoje vejo como isso também, mas como um reconhecimento via pele: a minha e a do túnel, uma se inscrevendo na outra. Penso muito em como desenhamos cidade e como também ela nos desenha; como um olhar atento abre possibilidades de se criar corpos e que o corpo que carrego hoje já foi modificado pelo trabalho com o túnel. També ele o foi. (Ao menos espero.)

Como já disse em outros momentos, busquei investigar além da materialidade do túnel, brincando com os usos que todo aquele aparato proporciona (escadas, perspectivas, corredor, corrimãos, luminárias…), investir também nas diferentes qualidades corporais que compõem a paisagem e me apoderar delas: como, ao mesmo tempo, estar instalada mas em fuga? A fuga, inclusive, foi um grande tema de pesquisa, não só pela presença constante da guarda municipal gatilho para a fuga, mas também a fuga desse lugar-não-lugar. Do casamento das fugas com a dinâmica dos corpos surgiu o núcleo “corpo-costura-corpos” em que me permiti explorar mais o espaço transversalmente, propondo novas linhas que não as longitudinais costumeiras de quem atravessa de um extremo a outro.

Foto: Ligia Rizzo

Engraçado notar como as propostas de ação se mantiveram, mas foram ganhando outras camadas, outras subjetividades. Como também é curioso notar no olhar das pessoas que estão/passam esse descascar de camadas. Notei muito isso em alguns dias em que uma dança mais “reconhecível” enquanto dança se fez necessária para mim ali dentro. Me desconectei das paredes e dei espaço a uns rompantes de dança, movimento com os fluxos, com as brechas, com um segundo de atenção. Aconteceu que rapidamente uma chave foi mudada e de um momento a outro aceitava-se mais aquele corpo diferente, não mais patológico, no túnel: as pessoas achavam graça, sorriam, e mesmo quando não achavam logo me encaixavam num lugar que lhes assegurava alguma coisa: o tal do “a que mexe com teatro”, “é artista”. Pelo vazio do túnel no mês de janeiro, me senti mais corajosa ao risco de me lançar entre as pessoas, dançar com elas, provocar, propor, e o que me era mais precioso, dar mais tempo para as qualidades corporais se estabelecerem. Ter essa tranquilidade que em dias mais agitados só escapa dos dedos. Parece que de fato sou engolida pelo fluxo e é sempre uma batalha esses momentos de reverter ou antes subverter o tracejado apressado dos deslocamentos. Vejo que é justo essa tranquilidade que esgarça a relação com o tempo e com o espaço (tanto minha quanto dos que estão/passam) e que em certa medida dá mais margem ao diálogo e a que se comunique alguma coisa.

Ao instalar o corpo numa postura mais corriqueira, pude observar que algumas pessoas olham para aquela presença com estranhamento, mas não com interesse. Ao propor uma imagem, um novo modo de o corpo operar, mantém-se o estranhamento e a figura ganha seu interesse dentro do estranhamento. Uma quase curiosidade (ou curiosidade abafada; atropelada pelo ir e vir que não ganha tempo de existir). Uma grande mudança de postura está também nos comentários que passeiam com seus locutores. Posso imaginar três tipos: aqueles que, como a curiosidade, ficam contidos; aqueles verbalizando o inclassificável, que, em geral, expressam o lugar patológico ou o da indignação ou do incômodo etc etc etc; e aqueles comentários “entendidos” que me encaixam no lugar da artista. Gosto de vagar por esses lugares de entendimento. Do não fixar-me. (Como também não me fixo em ação ali dentro.) Do inclassificável que é a qualidade mesma do túnel, de seus habitantes. O sem-certeza do túnel, que não é um lado nem outro, não é aqui ou ali. É quase um não-existir. O lugar-não-lugar de que falei, é a lente que se usa que focaliza uma ou outra condição. Fazer dali um lugar, será isso que incomoda tanto? Que desconcerta? Por qual lente costumo olhar? Que outras lentes podem existir para olhar o túnel? Como (in)adequar minha dança àquela porção de mundo? Àquele hiato? Àquele hífen?

Encontro no universo das letras alguns verbetes em que parecem caber o túnel. Mas faltam ainda respostas e outras tantas perguntas…

Sobre o corpo cênico, o estudo cênico e o que se segue…

Como já foi dito (em outros termos), o corpo que encontrei no túnel é de muitas facetas; um corpo que não se quer enrijecido ou catalogado e que, assim como o próprio sítio, carrega uma certa esquizofrenia, bipolaridade, não sei exatamente, mas vejo que acabo voltando à questão das patologias do ser daquele lugar. Talvez essa seja a grande pista fomentada pela pesquisa, ainda sem qualquer esboço de resolução. Mais que chegar a pontos finais ou de exclamação, o estudo me leva a reticências e pontos de interrogação. (Ou talvez essa seja minha natureza enquanto ser humano artista no encontro com seu “outro” semelhante; outro-lugar, outro-pessoa, outro-coisa, outro-situação, outro…)

Pode ser essa também uma das razões que me levem a encarar esse projeto por sua via não-espetacular, aproximando-o do corriqueiro da vida pela fricção com ela. A opção, por exemplo, de não fazer ampla divulgação do estudo cênico e convidar pessoas para uma “apresentação” (ou mesmo abertura de estudo) parte muito daí: deu-me gosto trabalhar com os interlocutores do acaso: marreteiros (que vez ou outra mudavam, vinham novos ou deixavam de vir, como foi o caso do Helder, que arrumou um emprego fixo) e passantes. Por isso acho que me foi um pouco incômoda a situação do dia de abertura do estudo, visto que configurou-se uma realidade até então não experimentada: um bloco-público (que se deslocava enquanto bloco na maior parte do tempo) e câmeras me colocando no “devido lugar” de artista, lugar esse que eu pretendi sempre o mais borrado possível.

Naquele dia tudo era diferente: outro espaço, outra configuração de dinâmicas e deslocamentos, outro olhar e atenção com os quais tive dificuldade em lidar. Fiquei depois pensando em estratégias, como que um “modo de usar” do espaço e do estudo com os possíveis usos do corpo ali embaixo também para o público que iria assitir. Mas tudo são especulações a serem levadas adiante…

Segundo mês – dezembro 2014/janeiro 2015.

Pens(Ações) entre 14 e 15.

Fim de ano, festas, férias. Tudo pareceu mais lento este mês, mais ainda depois da chegada do famigerado 2015.

Nessa época, tive a impressão também de que havia uma fiscalização mais intensa no túnel, tanto na frequência como no trato com quem está/trabalha/vive ali embaixo. Talvez pela grande procura de bugigangas, artigos baratos para presentear na época de natal, também houvessem ainda mais produtos falsificados, contrabandeados ou o que seja. Daí o apetite fiscalizador.

Alguns episódios ocorridos, vividos, me fizeram ter a sensação de que aquele lugar em aparente desordem, e apesar de diversas vezes parecer um pouco terra de ninguém, tem dono. (Tenho pensado como um limbo, sem tantas conotações religiosas, mas mais como um lugar onde se está de passagem, só não se sabe por quanto tempo). Esse dono de que falo está sempre à espreita de algo, de um vacilo, um titubear que saia dos ditos padrões da normalidade. Não é à toa que muitos comentários acerca da investigação que se dá ali são do gênero “Você é louca? Achei que fosso louca!”, “Está fazendo tratamento…”, “Maluca!” Sou mais uma ali fora da linha aceitável de conduta.

(Um adendo: Visitei a Nina na Barra Funda, e estávamos justamente a falar sobre isso que é tão comum no olhar e nas verbalizações da gente que passa. E um fato curioso: uma funcionária do metrô veio investigar se tinha alguém caído no chão, pois foi essa a informação que recebera instantes antes; ao olhar para Nina nem pestanejou e lançou “Será que ela saiu de algum hospital? Ela está com uma roupa diferente!” A arte fora do lugar a que foi destinada vai se aproximando da loucura. O uso dos espaços públicos resultou numa grande maluquice!)

Dezembro foi o mês de minhas visitas. Vieram Nina e Felipe, observadores às vezes quase que à paisana (droga, essa palavra remete tanto a algo com o que não me identifico!), lançando olhares e retornos preci(o)sos; e também vieram Ligia e Anny para o ensaio fotográfico.

Este, em especial, foi um dia atípico. O túnel estava com fluxo intenso de passantes. Calor. Achei que os marreteiros se mostrariam mais avessos à presença da câmera, mas aquele artefato assim tão descaradamente presente dava já o tom de suas razões. Talvez isso os tenha tranquilizado. Em ambientes hostis como é o túnel, a gente parece viver na beira sempre. Daí que me é totalmente compreensível que não se queiram fotografados, filmados, registrados: provas de um não-existir interdito.

Os feedbacks da Ligia e da Anny à roda de uma água gelada do boteco da William Speers deu um novo impulso ao estudo. Coisas que só pares de olhos alheios podem ver. Me trouxeram o olhar da poética instaurada num lugar aparentemente tão alheio a ela. Também os questionamentos fomentaram novas inquietações sobre o que é realmente preciso para aquele sítio. Que tipo de ação cabe. E, aí de modo mais prático, como pensar no todos dessas ações.

Nesse dia fui massacrada. Chorei. Segui. Que presença é essa que macula um espaço já tão vulnerável? Sem resposta, o atropelo é a reação e a solução mais tangível e imediata. Certeiro.

O que me lembra da visita do Felipe. Já na chegada, antes de qualquer ação, uma tensão se exarcerbava, transbordava de si. Fiscais. O mesmo movimento de sempre. Fiquei ali. Felipe também, estando. Nossa presença ali não tinha (não tem) razão de ser para eles. Não tínhamos nada que fazer ali, que não é um lugar de ficar. Não estão acostumados a que se fique ali quando de sua passagem-presença Se todos fugiram… Um dia de tensão, de fricção entre. Vazio que logo começa a se preencher. Não tarda muito e as ladainhas vão novamente sendo entoadas, ganhando corpo e coro.

Retorno do Felipe: “O movimento incomoda. A permanência incomoda. O olhar atento incomoda. O olhar atento da permanência torna permeável. O senhor feliz e sorridente faz bolhas de sabão.// Formas de violência sem toque.// A indiferença protege.// Isso do corpo gerar lugares foi um fuzilamento ali. Cada corpo um lugar, o lugar do que sobe a escada correndo. O lugar do que sobe a escada sorrindo. O lugar do que cobra a ajuda para olhar. O lugar de quem te observa. O lugar de paz do sorriso do senhor que a qualquer momento tem que correr.// Um todo lugar que é todo banal na indiferença de muitos que passam.// Permanecer e ser resistência nos entre-lugares pode ser leve e bonito.”

Tenho questionado muito o lugar-chão do corpo ali embaixo. Tanto pela distorção do plausível quanto pelo que é possível. Tive a oportunidade de observar um senhor dormindo no chão do túnel, próximo à rampa de acesso. Cena rara, já que com as férias a movimentação ali caiu drasticamente, abrindo espaços outros para outras formas de estar ali. Reparei no modo como os passantes reagiam àquela presença e notei o mesmo tipo de olhar que deitavam a mim, expressões faciais semelhantes, mas diferentes, já que aquele senhor ali tinha o seu lugar naquele todo-lugar; atribuia-se-lhe significado. Mas o que dizer de alguém que voluntariamente enfia a cara em tamanha sujidade apenas para ali estar? O que fazer se um olhar não basta como explicação? O que fazer se uma explicação não se basta? Novos atropelos, novos massacres, novos desprezos ou indiferenças. Ali tudo se torna lugar-chão, ainda que o corpo não lhe esteja em total entrega.

***

Das pens(ações) para as (ações).

Este último mês foi o mês de encontrar uma existência no, para e com o túnel. Uma busca por uma existência que passasse longe do ilustrativo, como uma vez me disse um marreteiro “ah entendi, você vai dançar nós!” Sim… e não. Quero dançar o que pulsa ali e não representar o que ali está. Onde começa o túnel? E onde ele termina?

Nessa busca, vou encontrando e testando ações em diálogo com o que o túnel e seus habitantes me propõem. Algumas ainda guardam seu interesse, como o contato com as superfícies numa espécie de leitura sensorial do sítio, os enquadres e as proposições de imagens. Outras que ficaram em suspenso a serem retomadas, como a proposta de oferecer danças.

Núcleos de ação:

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Foto: Ligia Rizzo

#1 Caminhar, parar, olhar, atravessar: não só o corpo caminhante mas o olhar como atravessador de espaços, de frestas; como propositor de novas perspectivas. Em meu deslocar jogo com a fricção entre dinâmicas: os corpos que pontuam o espaço e os corpos que transitam. O olhar também daquele que busca. O que busca? E daquele que vigia e alerta para a fuga.

#2 Enquadres de (com)posição: busca por enquadre para a minha ação, mas também servir de quadro para a ação do outro. Composições quase espontâneas (não fossem buscadas). Resposta cinestésica. Tenho me inquirido muito, sobretudo nesse núcleo, sobre o momento exato de finalizar uma ação, uma imagem. Eu termino a ação ou e ela que se finda em si? É uma escolha o fim, ou mera casualidade?

#3 Com-tato: leitura sensorial das superfícies. Momento de quietude, do corpo que reconhece a fisicalidade do lugar e se reconhece nele. Arqueologia. O tempo que mais se alarga, o espaço que dura.luiza 2

#4 Corpo-costura-corpos: caminhos cruzados, entrecruzados, cosidos por trajetórias movidas pelo desejo de entrar-sair da parede. Novos caminhos que levam ao mesmo lugar. Esse foi um desafio, pela quantidade de gente que transita. Uso as paredes como superfície de impulsão para me lançar de um lado a outro, costurar as tantas trajetórias; uma fuga constante para um outro quase-lugar.

#5 Re-usos: novas propostas de utilização dos suportes físicos do túnel, do próprio túnel, do corpo dentro do túnel, do corpo com as superfícies.

luiza 3 Foto: Ligia Rizzo.

#6 Com-tra-jetória da mirada: um dia resolvi atravessar o túnel de costas da saída para a rua 12 de outubro à saída para a rua William Speers. Era horário de pico. Túnel lotado. Escolhi fazê-lo o mais devagar possível por duas razões: questão de segurança, para não pisar nas pessoas (sobretudo os idosos) e para constrastar as dinâmicas de movimentação. Foram aproximadamente 30 minutos de travessia e o que mais me chamava a atenção eram os rastros dos passantes: uma reação captada pela metade, um retorcer de face, olhares diversos. Repensei essa trajetória com um espelho que aponta para quem vem diante de mim: olham a mim ou a si mesmos? chegam a deparar com suas expressões no pequenino espelho? o que se enxerga ali? como se enxerga? Essa ação foi uma espécie de manifesto do meu corpo. Levo adiante.

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Diário de Sítio

Primeiro mês – novembro /dezembro 2014

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INFORMAÇÕES TÉCNICAS:

Construção: Década de 1950.

Extensão: 110 passos (meus).

Iluminação: Pouca

Sujeira: Muita

Pessoas: Comuns

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 (Mapa disponível em google.com.br/maps/@-23.5181542,-46.7041019,17z. Acesso em 17/12/2014).

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 (Vista da entrada da R. 12 de Outubro. Disponível em Google Maps – acesso em 17/12/2014)

 

Localização: Sob a estação Lapa da Linha 7 da CPTM com saídas para a R. 12 de Outubro, R. John Harrison, R. William Speers, além de acessos à propria estação sentido Luz e Francisco Morato.

 

O QUE É [W]HOLE_110p?

Fala sobre atravessamentos, conflitos, instabilidade; fala sobre a permanência e a ruptura; fala sobre o feio, o sujo, o roto, o fétido, mas também sobre as belezas que emergem, que insistem, que persistem, que pulsam. [W]hole_110p é tensão, é fragilidade, é armadura de guerra; é escuro, é estreito, é demorado; é entre, é sob, é sub.

Ainda tento descrever o que é aquele lugar, mas as palavras nunca me parecem suficientes.

De modo (não tão) objetivo: é um túnel que passa sob a estação Lapa da Linha 7 da CPTM. Lá dentro, durante todo os dia, ambulantes, ou melhor, marreteiros (como eles mesmo se autodenominam) vendem de quase tudo: chocolates, salgadinhos, água, refrigerante, fones de ouvido, roupas (femininas, masculinas e infantis), bolsas, acessórios para celular, brincos, tiaras, películas de unha (sim, isso existe!), brinquedos luminosos (ou não), relógios, cintos, óculos. É uma infinidade de coisas.

luiza4 (FOTO 2)

Importante dizer que durante o dia, todos expõem suas mercadorias sobre caixotes (de feira ou de papelão) com poucos exemplares: assim é mais fácil juntar tudo para fugir da fiscalização que passa algumas vezes ao dia. Mais importantes ainda é dizer que após as 21h (ou 21h30) um verdadeiro comércio subterrâneo se instala ali findo o último turno dos fiscais dos bons modos, da moral, do correto, do puro e do belo. Aí é a festa!

De modo (um pouco) mais objetivo: São seis escadas de acesso e uma rampa (de um lado só! Se entrar, só sai pelo mesmo lugar, ou seja, sem acessibilidade). Algumas luminárias de luz branca (tipo lâmpadas fluorescentes tubulares), nem todas em funcionamento e muitos spots quebrados. Nas paredes, pixos de todos tipo, mas um se destaca pela repetição (são 7): “Edmilson vocêé corno outra vez de novo” (pobre Edmilson!); há também papéis colados com anúncios de casas para alugar, para comprar; anúncios de amarração do amor; anúncios de serviços etc etc etc. Nas laterais (entre as paredes e o piso) uma canaleta com água pútrida e gosmenta, sujeira, restos dali. No chão sempre há restos de embalagens, caixas de papelão, vestígios de quem passa e quem está. No teto há também alguns pixos e há um respiro entre a saída para a estação e a saída da r. John Harrison que permite a entrada de um pouco de luz e ar.

 

Pens(Ações)luiza 5

A pesquisa começou com muita muita observação. Foram duas semanas de visitas regulares apenas indo ao túnel, estando presente ali como tantos outros. Imersa. Sub-mersa. Pensava que não caberia propor ações naquele sítio antes de experimentá-lo, ou antes que ele me experimentasse, já que minha proposta vai mais no sentido de que corpo é aquele que ali está e que tipo de relações podem ser tecidas (ou não) ali embaixo.

A princípio só o que me era permitido era cruzar aquele lugar como outra pessoa qualquer. Mas no fim, alguns acabavam percebendo que eu não era só mais uma passante. Daí tornou-se necessário algumas aproximações e apresentações (inclusive para tranquilizá-los de eu não era da fiscalização ou algo do tipo).

As aproximações se tornaram, então, o grande motivo de minhas visitas: conhecer as pessoas que trabalham ali, que vivem o túnel. Saber delas, de suas vidas, de suas histórias, de histórias vistas e vividas naquele entre. Aqui começo a propor ações. Uma relação de trocas começa a se estabelecer: troco uma história por uma dança (ou algo que o valha). Deste modo conheço mais alguns marreteiros e causos do túnel e pago com pequenas ações que, ainda que sem grande expressividade, começam a alterar a dinâmica dos corpos, das passagens, da atenção de quem trabalha ali e dos que passam naquele exato momento. (#aparte: quem sabe estabelecer um balcão de trocas? Mais uma dentre tantas mercadorias sobre um caixote!)

Daí em diante começo a de fato propor ações em minhas visitas, pensando sempre no paradoxo dos corpos: instalados X fugidos. Que corpo é esse que num instante está e no outro só existe enquanto rastro? Me pergunto se os ambulantes não formariam um só corpo (o corpo de baile do túnel) pela imagem que eles formam nos momentos de fuga e de retomada do espaço: uma onda que quebra violenta, deixa a areia molhada como vestígio, a calmaria que precede nova rebentação.

Apesar de meu grande foco ser os que estão, acabo alterando a dinâmica e mesmo a atenção dos que transitam. Seja pelo ruído que um corpo noutro estado causa ali, seja pelo estorvo que é um corpo parado no meio do caminho, seja pelo não entender ou hostilizar, outras leituras do túnel começam a surgir. O que é possível a um corpo ali embaixo? O que é aceitável?

Por conta de alguns experimentos, como o uso do plano horizontal por exemplo, passei a perceber que sobretudo para quem passa, em geral, é aceitável o que é apreensível. Uma pessoa deitada, por mais que ela diga que está tudo bem, que não quer se levantar, que só está ali não é aceitável (e nenhum desses argumentos basta).

 

luiza 6Nesse jogo do corpo instalado e do corpo fugido novos focos vão sendo lançados ao espaço e seus habitantes; pequenas frestas, rasgos que muitas vezes passam despercebidos mas que, pelo incômodo gerado, podem fazer pensar (ou dar aquele pequeno nó nas entrâncias do entendimento), ainda que as reverberações se dissipem ao cruzar para o outro lado.  Em princípio, me questionei bastante sobre o que é uma passagem (também em contextos outros). E a imagem do túnel vinha como uma passagem alargada no espaço e no tempo. Uma porta é uma passagem. Mas e um túnel? Digo que é alargado no espaço e no tempo justamente pelo fato de abrigar tanta gente, tantas situações e realidades diversas.

Minha rotina de trabalho sempre foi dividida em momentos. Como meu pai mora bem próximo ao túnel, fiz de sua casa meu QG. Ao chegar à Lapa fazia sempre questão de não passar pelo túnel e cruzar a linha do trem por outras vias de acesso: seja um outro túnel mais adiante, seja a passarela da estação. Tomei essa decisão para tirar proveito da primeira impressão do dia.

Na casa de meu pai, antes de mais nada, traçava um roteiro de trabalho com propostas de ação, focos de observação, objetivos e só então iniciava uma preparação corporal para encontrar com esse “corpo do trabalho”: mapeamentos do estado corporal no chão, aquecimento com atenção à respiração, alongamentos breves (quando ainda não me utilizava do próprio sítio para o que o Núcleo chama de “alongamento invisível”); também antes de sair ao sítio, após algumas visitas e observações do corpo do túnel, comecei a testar esse corpo da ambiguidade: o corpo instalado e o corpo da fuga.

Para o corpo instalado, em momentos de improvisação em que utilizei bastante do que tenho experimentado na pós na Técnica Klauss Vianna, dei lugar às necessidades de movimento e de pausa do corpo, encontrando nessas pausas o que mais adiante (em imersão) chamei de “lugares de estar”, que são lugares escolhidos a cada visita ao túnel para os quais eu sempre voltaria ou que seriam tomados por um espaço de tempo mais longo: à exemplo dos marreteiros do túnel, eu também tinha um local de trabalho: um ponto de vista para o espaço e para o fluxo de pessoas.

A ida da casa de meu pai para o túnel era, em si, um túnel. Me explico. Era o momento de passagem. A transição viva entre aquele corpo preparado para o trabalho e o corpo em estado de trabalho, No caminho trabalhava estados de atenção para já chegar ao sítio o mais porosa possível: estado 1 (atenção ao meu corpo/minha subjetividade), estado 2 (atenção ao espaço e suas dinâmicas) e estado 3 (atenção aos outros corpos ocupantes do espaço).

Já no sítio, com as proposições já traçadas, começava minha investigação. Claro que na maioria das vezes aquilo que planejava acontecia pela metade ou nem acontecia: contingências do sítio e do que ele e seus habitantes me propunham como relação que se dava e estava latente. Poucas foram as vezes que cumpri à risca meu roteiro apesar do que me colocava o sítio. Nesses momentos, sentia que o diálogo se esvaía,o que eu me tornava nada além de “a menina que está fazendo teatro”.

A ação mais recorrente que realizei no túnel foi a caminhada em si: comportamento normal e esperado para uma passagem que liga um lado a outro do bairro e ambos à estação de trem; cruzamentos pelos diferentes acessos ora compondo com os passantes, me diluindo entre eles, oracontrapondo-os em velocidade reduzida com pausas na multidão: um estorvo? um problema? está passando mal? Sai da frente!!

Na aproximação com os marreteiros, comecei uma coleta de histórias e causo

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