LÍVIA RIOS / Voltar

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Livia Rios

É atriz, capoeirista, pesquisadora em dança e teatro físico. Iniciou suas pesquisas teatrais em 2003 em Fortaleza-CE, onde ingressou no Curso de Artes Cênicas do IFCE (Instituto Federal do Ceará). Na mesma universidade, integrou o Núcleo de Pesquisa em Teatro Físico (foco no trabalho corporal do ator-criador), com o qual foi contemplada pelo Edital de Formação da FUNCET (2007), através do qual veio dar continuidade ao seu trabalho corporal durante um ano no Estúdio Luis Louis (Mímica e Teatro Físico). Reside em São Paulo e está em conclusão do curso Comunicação das Artes do Corpo na PUC-SP, com habilitação em dança. Com o coletivo ¿, investiga desejos e hibridações entre as linguagens do corpo. Integra a companhia teatral Chica e Olga Ateliê de Criações.

Livia Rios
REDE ou lugar para descansar
Diário de Sítio
Terceiro mês – Janeiro/ fevereiro 2015

Antes de começar a escrever este terceiro relatório mensal, reli os primeiros relatórios e observei as fotos tiradas durante a residência. Foi um exercício bem interessante, consegui visualizar um trajeto no qual fui adquirindo confiança naquilo que estava propondo. Senti-me cada vez mais próxima do sítio/lugar e das pessoas. Acredito que isso aconteceu com todos os artistas residentes em suas pesquisas.

Livia porLigia Rizzo

Foto de Ligia Rizzo/ início de dezembro

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Foto tirada por um passante / fim de janeiro

A forma como nos colocamos fala sobre as relações que queremos. E eu desejei propor proximidade. Meu corpo, descansado e aberto, sorriu. Bem perto. Dos carros, das pessoas, das bicicletas. Fui me abrindo e o espaço também sorriu pra mim, com todos os seus variados tempos (tempo de quem corre, tempo de quem dirige e aguarda no farol, tempo de quem pedala, tempo de quem espera o ônibus, tempo de crescimento da enorme árvore que me oferecia sombra nas tardes de descanso).

Em conversa com a Thaís Ushirobira, uma das orientadoras da pesquisa em situ, falamos sobre esses variados tempos que coexistem ali, naquele lugar. Propondo um tempo para estar, percebo talvez dar luz a essas variações de tempo, logo, de espaço. In situ que quer passear pelos tempos e memórias. E passei a reconhecer que o lugar/situ é flexível, movente, sempre transformado.

Um amigo comentou comigo que alguém próximo a ele lhe contou sobre “uma menina que estava numa rede, dia desses na Sumaré”. Depois de ver uma foto minha em sítio no facebook, lembrou-se do comentário do amigo. Senti-me também fazendo parte do imaginário daquele lugar e das pessoas que estiverem ali naqueles instantes.

Um dos encontros bem especiais aconteceu com um especialista em corrida, que trabalha realizando assessoria esportiva para grupos. Corria na avenida, parou e permaneceu (uns 15 minutos) conversando comigo. Não sabia se tentava interromper a conversa, mas ele dizia coisas muito interessantes sobre o que via daquele “estar”. E que também pensava sobre o tempo. Queria estar próximo dos filhos, acompanhá-los crescer. Que fazia o seu horário e que ninguém reconhecia sua profissão como trabalho. E estranhavam ele ter tempo para ir à piscina com os filhos num dia da semana qualquer. Ele, que está na foto acima, postou-a no facebook com o seguinte comentário:

“Hoje cedo, em meio a Avenida Sumaré, conheci a Livia Sernache Rios. O que me chamou a atenção não foi a rede, mas sim a expressão do seu rosto que trazia um leve sorriso, uma imensa sensação de paz que é difícil encontrar por aí. Enquanto isso, pessoas passavam em busca de um salário perfeito, horrorizadas abaixando o vidro de seus carros, algumas dizendo (que inveja). É impressionante como o mesmo lugar pode ser tão louco e tranquilo ao mesmo tempo….. Espero que cada um de vcs encontre a sua rede e possa sentir um pouco mais da vida!!!!! É assim que me sinto quando estou correndo, (na rede)!!!!! Grande beijo!!!!!”.

Depois, pelo facebook, me disse que havia ficado pensando o dia todo naquela imagem. Fiquei bem feliz. E fiquei desejando mais encontros como esse. Cansei-me de ouvir frases como “gostaria de trocar de lugar com você” ou “vida boa”. Parece ser só uma primeira camada, mas sem julgamentos e juízo de valor. Tudo faz parte, e disso eu sei. Mas passei a me interessar mais pelo não dito, silêncio ou um olhar perplexo. Também por conseguir um sorriso de alguém sisudo. São momentos da pesquisa que também acho natural que aconteça: sentir prazer e desejar mais determinadas relações. Mas todos os afetos são bem vindos!

Um desses bem sisudos, um senhor, caminhava e me surpreendeu vindo me embalar cantando “dorme neném”. Diverti-me muito. Pra mim, REDE é dar amor, paciência, serenidade, aconchego, maciez, conforto, singeleza, sutileza, simplicidade. Fiquei satisfeita em propor, de uma maneira bem simples e enxuta, uma situ (ação) que fala muito sobre mim e sobre coisas que me inquietam. E por isso me movem!

Um rapaz compartilhou uma foto minha na rede, com o comentário “um lugar ao sol”. Fiquei pensando: que lugar é esse, ao sol, que eu busco pra mim? E lembrei-me de um encontro que tive (comentado no primeiro relatório), com uma jornalista que me entrevistou. Ela me perguntou qual era meu sonho. Respondi que era continuar fazendo aquilo que estava fazendo, estava satisfeita em criar, só queria continuar desenvolvendo formas de dizer artisticamente coisas que me inquietam. E ter sempre tempo pra isso… Propor situações que não sejam apenas aquelas possíveis, mas as impossíveis, as invisíveis, as não ditas, as silenciadas, as adormecidas, as ofuscadas, as que não estão na luz, mas pertencem a todas as sombras. Humanidade. Aquelas comuns e inerentes a todos.

Fazendo parte do cronograma do projeto, marcamos algumas datas in situ com o Pedro Ivo, responsável por produzir um teaser do registro audiovisual de cada proposta. Além das datas de registro audiovisual, tivemos um momento anterior de registro fotográfico com a Ligia Rizzo, integrante do Núcleo. Num outro momento fui “assistida” pela Thaís Ushirobira, que me orientou com seu retorno, e, na data “oficial” divulgada como um momento de “fechamento” do processo, pela Carmem Moraes (quem concebeu e coordenou o projeto, além de também orientar as pesquisas de maneira geral) e amigos. Tanto ser “registrada” como ser “assistida” em propostas dessa natureza é bem delicado, por não serem feitas “para” o video e nem “para” as pessoas, mas para existir naquele momento, com o espaço e com pessoas que porventura habitam ali. Fiquei pensando muito que não é quando tem gente olhando (público, tipo amigos) que os melhores momentos acontecem. Mas tudo bem. É só um outro momento. É isso. Não temos metas a cumprir. Difícil é conseguir fugir deste corpo adestrado que se impõe metas e coisas “certas”. É apenas mais um dia de pesquisa, acontecendo em seguida de outro, igualmente “perfeitos” Onde qualquer coisa “monstruosa” (sem formas, sem controle, imprevisível) pode acontecer. E se tornar eterno.

E nesse “agora”, cheio de possibilidade de futuro, cabe uma infinidade de vida, uma eternidade. “Esto es la eternidad. Este ahora. Este lapso acortado” (Charles Olson, “The Resistance”). Esse fragmento integra o texto “Futuro Perfecto”, do autor Ric Allsopp, estudado na disciplina Teorias da Dança com a professora Helena Katz (na PUC-SP, curso Comunicação das Artes do Corpo). O texto fala desse futuro que se revela no presente, e que é perfeito justamente por ser imprevisível, sem forma, monstruoso. Fala da arte como maneira de revelar instabilidades e o por-vir: “La inestabilidad y la oscilación entre cuerpo, objeto y valor que nos permite negociar el mundo es ló que el arte abre para nosotros desde el passado, como una revelación de ló que podría ser”.

Termino aqui o último relatório sabendo que muito ainda virá, que muito coisa se revelou pra mim, nos momentos que estive presente no sítio, com muitos encontros mais que preciosos. E a REDE continua… Onde fica o “lugar para descansar”?

Referência bibliográfica

ALLSOPP, Ric. “Futuro perfecto”, in Hacer historia, Reflexiones desde la práctica de la danza, ed. Por Isabel de Naverán. Espanha: Grupo Gráfico Delma, 2010.

REDE ou lugar para descansar
Diário de Sítio
Segundo mês – Janeiro 2015
Canteiro central da Avenida Sumaré, Perdizes, São Paulo – SP

O ano começou fervendo! Um calor tremendo acompanhou a virada e parece que as pessoas a minha volta encontram-se calorosas e renovadas, ou sou eu que estou! “Tá de boa!” é o que eu mais tenho ouvido durante a ação no sítio. Fui presenteada com acontecimentos muito preciosos durante as minhas primeiras visitas ao meu querido quintal, canteiro central da Avenida Sumaré. Até então, busquei variar o entre-árvores para pendurar a rede e os horários de visita. Mas sinto que só agora encontrei um entre-árvores e horário justo para o momento. Para o calor do momento! Assim, visitei-o repetidas vezes, embora ainda me interesse perceber a ação em contínua variação, porque sei que é só uma percepção de justeza, que logo pode me escapar pelos dedos, ou pelas brechas da rede num suspiro de descanso…

Um pouco antes das 17h00, o trânsito já começa a dar sinais de que logo se intensificará. O sol tem começado a dar um alívio, a chuva tem ameaçado cair. Mas não cai. Aparecem nuvens e muita gente buscando recuperar alguns quilinhos ganhados no fim de ano. Ano novo e um promessa de cuidado com a saúde. Mais corrida, mais gente, mais bicicleta. Logo o canteiro está em intensa circulação, assim como os arredores. Alguns ainda em férias. Outros voltando do trabalho, mas ainda descansados, o ano está só começando. Sinto o bom humor preservado!

Procurei distanciar-me um pouco das minhas proximidades nas idas anteriores ao sítio no ano passado (moro próximo a Rua Bartira), mas foi no lugar mais perto de mim que encontrei um cantinho especial: o Cantinho do Açaí e da banca de frutas da avenida (ao lado da Rua Bartira).

foto banca sumare

Ali, posso comprar água de coco, frutas e açaí, e “enfiar o pé na jaca” para completar minha imagem de “sobra e água fresca”. No canteiro próximo dali, tem dois entre-árvores com sombra no período da tarde, pois adquiri mais uma rede, o que ampliou a ação de uma forma que eu nem imaginava. Muito gostoso ver alguns sentando, deitando, ou mesmo fazendo “selfie na rede”. Eu fico de longe vendo, da minha rede, deixando-os à vontade para se relacionarem como quiserem. Coloquei-as de modo que consigo ver a outra rede de onde estou, embora tenha certa distância, mas não muita. Conseguimos sorrir um pro outro e de certa forma autorizar seu uso. Alguns percebem que ela é minha, que eu coloquei (graças ao projeto Situ[ações]!) para o “nosso” uso. Outros vieram me perguntar se as redes eram da banca de frutas. Outros ainda me perguntaram se era alguma ação de marketing de algum produto. Acho isso demais. E explico amorosamente que a rede está ali para quem quiser, quem quiser se dar um tempo de descanso. Afinal de contas, cada vez mais um luxo. Custa muito. Ao mesmo tempo tão pouco. Uma imagem. Uma rede, sombra e água de coco. E muito dos carros gritavam “que inveja!”, ou “eu queria uma vida dessas”. Deixei que essa imagem aparecesse livremente, sem preocupações com que tipo de linguagem estou trabalhando, enfim, estou “de boa!”.

E me deixo gargalhar junto com algum motorista que passa e se diverte muito comigo. E gosto de me divertir e divertir os outros. Um riso espontâneo, talvez numa volta do trabalho, para aliviar um dia tenso com uma surpresa inesperada. E também gosto de mostrar que sei que estão me vendo. Cruzo olhares. Percebo se dá pra rir junto ou não. Melhor só passar os olhos, pois ali aconteceu outro tipo de afeto, uma reflexão talvez, ou uma indiferença. Vou deixando… Passam conhecidos também, afinal a avenida é o quintal da minha casa. Cumprimentam-me, conversam comigo. Tudo bem, não vou fingir que não os conheço ou que não estou ali. Uma conhecida, bem séria e tímida, teve uma crise de riso incontrolável, não sabia o que fazer, e todos que me olhavam também olhava pra ela, que não sabia o que fazer com aquela situação. Tirou uma foto comigo e foi embora. Estou em busca dessa foto e de inúmeras outras tiradas de dentro dos carros. Mas não encontrei nenhuma.

Não sei o que posso fazer para ter alcance a esse material. Já pensei em colocar uma plaquinha próxima da outra rede pedindo para que me enviem a foto, caso tirem. Mas acredito não ter nada a ver com a ação. Mas queria muito ver o que as pessoas escrevem e suas percepções.

Fico impressionada com o alcance da imagem e como o signo rede é forte e potente. É carregado de uma referência de tranquilidade, férias, descanso, privilégio. E podemos encontrar em qualquer parte do mundo. Em minhas férias, tive a oportunidade de viajar com a família para Santiago do Chile, e em uma feira que vende tudo, lá se estava um brasileiro (Carlos) vendendo rede, e ganhando a vida com ela. E eu me encontrava com o a mesma bermudinha de guerra, posso até dizer que fiz a ação no Chile, uma ação internacional. Por que não? Acho que todos precisamos descansar, e consumir menos para viver mais!

foto rede Chile

Existe também o que cabe ali no canteiro da avenida. A regra. Pode um conjunto de coisas, mais rede foge um pouco. Mas, de verdade, não imaginei que não coubesse tanto. Faz parte da nossa cultura. Pude ver em Santiago, uma cidade tão grande quanto São Paulo e com algumas características em comuns, que eles deitam em qualquer pedacinho de grama. Isso causaria uma exceção para a nossa regra.

Percebo que as pessoas estão associando muito a ação ao calor. De dentro do carro mostram seus leques, ou dizem que estão com ar-condicionado ligado. Ou acham uma ótima ideia e me parabenizam pela iniciativa “sustentável”. Tudo bem, o calor tá demais mesmo, não dá pra ignorar, e, de certa forma, também tem a ver com o estar na rua e refletir sobre novos usos dos espaços públicos e tantas outras coisas que desejemos associar. Acho bom, fico feliz. E, por coincidência, quase na hora do apagão de segunda-feira (dia 19/01) eu estava na sombra de grandes árvores, enquanto muitos estavam com seus ventiladores e ares-condicionados interrompidos. Tendo o privilégio de observar algumas cenas excepcionalmente interessantes…

De um lado da calçada, próximo à banca de frutas, estava uma menina rindo, tirando foto de mim e enviando para uma outra pessoa. Eu imaginei ela escrevendo: “cheguei, estou perto dessa moça na rede! Rsss”. Logo em seguida, outra menina desce do ônibus rindo, me vê, e escreve pra ela: “Também estou aqui! Rsss”. Elas se acenam, uma de cada lado da calçada, e eu no meio. Elas vão ao encontro uma da outra e se sentam na rede vazia. Ali conversam uns 15 minutos, parecem felizes mais em seguida se desentendem. Tudo muda. De repente uma vai para um lado e a outra para o oposto. Cabeças baixas. Olham para o celular, talvez alguém volte atrás, mais nada. Eu acompanhei tudo, da rede. O encontro e o desencontro. Emocionada, levantei da rede, desmontei acampamento e fui embora. Que bom ter a possibilidade de captar momentos preciosos que só em descanso se é capaz.

Um privilégio dos fracassados, ou dos que não são bem-sucedidos…

obra Andy Singer

Obra de Andy Singer/ exposição Sem Saída

REDE ou lugar para descansar

Diário de Sítio
Primeiro mês – novembro /dezembro 2014
Canteiro central da Avenida Sumaré, Perdizes, São Paulo – SP
Livia 1

Foto de Natália Coehl

Avenida Sumaré. Correm pessoas, carros, ônibus, motos e bicicletas. Sob a Avenida, também corre um afluente do Rio Tietê, canalizado com a inauguração e pavimentação da mesma em 1969. Chamada antigamente de Grande Vale, rodeada por chácaras e casarões, desde sempre um lugar de fluxo, de córregos (dadas as suas devidas proporções e formas no tempo). Um espaço de passagem, de trânsito, de circulação. Hoje, prédios residenciais e comerciais, postos de gasolina e lojas também compõem essa passagem de dois quilômetros e meio de extensão.

O canteiro central é uma estreita faixa compartilhada por ciclistas e pedestres. Uma brecha. Nos dois lados que cercam o canteiro, pistas de circulação de carros e motos. Trânsito, como habitual em São Paulo, nos horários de máximo fluxo. Barulhos de carros e motos se mesclam aos sons dos pássaros que povoam as grandes árvores que permeiam toda a avenida.

Nessa estreita faixa, transeuntes passeiam com seus cachorros e bebês. Uns correm, outros caminham. Bicicletas passam rapidamente. Alguns andam de skate. Outros ainda utilizam a Avenida como lugar de simples passagem, acesso para outro lugar. Nos arredores, nas calçadas dos dois lados, pontos de ônibus e bancas de jornal.

Um lugar curioso. Uma espécie de beira mar sem mar. Quase um parque extenso. Sem pausa, sem descanso. Um sempre ir entre árvores. Entre carros. Entre pessoas que se cruzam e atravessam a Avenida.

Síntese da Proposta

Livia 2

Fonte: www.google.com.br Fotógrafo desconhecido

A partir de um trabalho realizado dentro da obra do artista plástico Tunga, no qual permanecia três horas em um grupo de esculturas propostas pelo artista (uma rede também fazia parte da proposição), vivenciei um encontro muito especial, no qual uma criança de dois aninhos veio em minha direção, enquanto eu me balançava. Existia algo ali, um bem estar talvez, que a conduziu ao meu encontro. Ou simplesmente um balanço que a atraiu, como é de costume entre crianças. Mas talvez o meu “estar” tenha despertado o interesse dela e, desde então, desejei experimentar este estado de corpo proporcionado pela rede em outras situações. Como seria uma rede deslocada daquele espaço? Que lugar a abrigaria de forma a proporcionar novos encontros?

Através do presente projeto, acrescido pelo enorme interesse em investigar a Avenida Sumaré como lugar de passagem e encontros, resolvi testar a rede como potencial desencadeador de situ[ações]. Surge então um início de pesquisa, na qual caminho pelo canteiro em busca de um “entre árvores” para pendurar uma rede de descanso. São muitos “entre árvores”, cada dia “escolho” um. Ou é ele que me escolhe. Caminho percebendo o fluxo de carros e pedestres, abrindo espaços no corpo, escutando, vendo, sentindo o lugar. Deito e ali fico “estando”, sem pressa, sem formas para me relacionar, aberta ao que poderá surgir a partir desta proposição. Percebo o meu corpo e o quanto ele se transforma ao longo do tempo. À medida que meu corpo se transforma, o ambiente também. E o ambiente também transforma meu corpo, num fluxo de trocas intenso, co-dependentes e sem dominância. Este ambiente, que é lugar de corpos em contínua relação, permanece se modificando, assim como eu e todos os outros corpos que ali circundam.

Percebo que a situ[ação] proposta tem um caráter de permanência. É necessário um tempo longo para o corpo buscar a tranquilidade e a calma compatíveis com a imagem sugerida. É apenas um olhar sobre o tempo das coisas. Um olhar sobre a possibilidade de acalmar o corpo. Uma ação/rede como possibilidade de criação de uma conexão em descanso, uma rede de calmaria, na qual escutar o próprio corpo e os outros corpos é uma necessidade para compartilhar espaços.

Livia 3

Fonte: www.redesantalucia.com.br / Autor desconhecido

Livia 4

Foto de Natália Coehl

Síntese do primeiro mês de trabalho

Visitei o sítio em dias e horários variados, cerca de duas vezes por semana. Que um dia é sempre diferente do outro a gente sabe, mas parece que esquece! E acaba indo ao encontro do lugar com algumas expectativas que foram geradas a partir da última visita. Mas sempre diferente, sempre outra. Sempre quebrando com aquilo que achávamos estabelecido e entendido.

De modo geral, apesar de nunca podermos entender ações como essa (com caráter pontual) de forma generalizada, aos fins de semana as pessoas estão mais abertas, sem pressa, animadas. Durante a semana, principalmente em horários de pico, os carros acabam não baixando os vidros, os pedestres estão com pressa (muitos fingem não ver) e os ciclistas seguem seus caminhos.

Em um sábado de sol, um carro parou no sinal, tocando alto uma música clássica. Uma mulher ficou um tempo me observando de dentro do carro, com a janela aberta. Foi como uma sonoplastia pra mim, para nós. Esta sonoridade proporcionou uma troca de olhares e um encontro incrível. Aquela música não era mais a mesma pra ela. Ela seguia, e eu continuei ali, também outra. Outra da mesma.

Para quebrar com pensamentos generalizantes que toda hora nos dão rasteira, foi numa quinta chuvosa, em horário de fluxo, que uma mulher, passeando com seu cachorro, se dirigiu a mim. “Posso me aproximar?”. Eu respondi que sim, claro. Ela se apresentou, disse que era jornalista e que, fora do seu trabalho formal, ela desenvolvia um projeto particular no instagram. Fazia “perguntas aleatórias para pessoas aleatórias”. Começava a chuviscar, e ela perguntou se eu continuaria ali. Eu disse que sim e ela ficou. Fez-me perguntas aparentemente piegas, mas bem profundas. Me desarmou. Chorei falando sobre meus desejos, meus sonhos e o que penso sobre o amor. Fotografou-me, enquanto seu cachorro pulava em mim, e seguiu. Não guardei seu nome, nem seu contato, mas espero vê-la novamente. Encontrá-la nesta rede de afetos. Embora ela já faça parte desta rede independente de qualquer futuro encontro. Nosso encontro durou, por enquanto, esse tempo. E penso que essa é a pesquisa e este é o caminho. Encontros que duram determinado tempo, mas permanecem no corpo e no tempo.

Outro encontro muito importante para o trabalho se deu entre mim e a também residente Maria Clara. O fato dos nossos sítios serem próximos fisicamente nos possibilitou ampliar nosso encontro além das reuniões do Núcleo, o que foi bem visto e instigado para ganhar força. Pude observar e perceber que cada situ[ação] pede determinado corpo, determinada vestimenta, e trata-se sempre de uma pesquisa, de um processo de experimentação proposital, com metodologias e escolhas. Testa-se algo e percebe-se o que dali foi apontado como potente e instigador. Com proposta bem diferente da minha, foi um encontro muito especial. Aprendemos muito sobre nós mesmos vendo o outro.

A minha escolha de apenas “estar” na rede surgiu como um enorme desafio pra mim. Parece vir para quebrar preconceitos e julgamentos que eu mesmo tenho sobre ações desta natureza. E o movimento, todos os anos de treino, estudo de qualidades do corpo, presença, como percebo nesta proposta? Em que linguagem ela se enquadra? Como devo preparar meu corpo para estar nela? Eu, que venho de uma formação que valoriza a técnica (entendendo-a como processual, e não mera repetição e busca de perfeição), percebo o que preciso, mas é difícil entender que corpo é este. É um corpo cênico? A partir do momento que pensei e planejei a ação já construí algo no corpo que o reconhece como cênico?

Aos poucos, até para entender melhor que corpo é esse, tentei experimentar algumas pequenas ações além da ação de deitar e ficar na rede. Balancei-me sentada. Caminhei no canteiro arrastando a rede no chão, um rastro. Mas tudo que trago percebo não agregar algo importante para o trabalho. Como se ela só se bastasse, e nada mais. E só ali, no deitar e permanecer, surgem interessantes retornos daqueles que me percebem e me percebo vivenciando um processo prazeroso.

Bem no início da pesquisa, refleti muito sobre o que vestir nesta proposição. A partir de algumas conversas com o Núcleo, sobre o quanto o figurino é importante para darmos pistas sobre as relações que nos interessam no desenvolvimento do trabalho, resolvi experimentar desde o início roupas cotidianas para estar no sítio. Interessou-me e continua a me interessar a dúvida se a ação trata-se de uma proposta artística ou não. Acabo utilizando sempre a mesma bermuda e alguma camiseta lisa. Não é um “figurino”, mas não deixa de ser uma escolha para aquele espaço e aquela ação. Reconheço que, também pela escolha da roupa, as pessoas se aproximam normalmente, das formas mais diversas.

Percebo que existem diferentes níveis de relação. Desde pessoas como a jornalista que se aproxima e por isso podemos desenvolver uma relação direta, àquelas que passam e me observam de dentro do ônibus. Todas estas me interessam muito. E são igualmente importantes pra mim. E tem ainda aqueles muitos outros olhares que eu desconheço. Talvez alguém da varanda de um prédio. Ou olhos que me observam por trás dos vidros espelhados do prédio comercial próximo. Instiga-me o imprevisível, o não saber, o “talvez ali tem um olhar que me percebe”…

E se também quiserem deitar? Quero poder oferecer um descanso, mesmo sabendo que o meu descanso já é um descanso para quem observa. Venho e parto de uma única rede, mas quero seguir com outras redes postas para aqueles que também queiram estar nela. Estou indo a caminho de aquisições de novas redes. Mesmo que, em seguida, possa achar que não era por este caminho. Essa é a beleza da pesquisa.

 

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