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Por Carmen Morais

De segunda a sexta-feira[1] é um projeto de pesquisa em dança in situ/site-specific[2] que tem como terreno de investigação e intervenção as feiras de rua da cidade de São Paulo.

Como artistas da dança temos um profundo interesse em estudar minuciosamente quais questões de composição e criação em dança contemporânea são intrínsecas ao investimento da dança fora do espaço convencional (palco) e sobretudo inserida no espaço urbano, em uma proposta in situ.

Escolhemos as feiras de rua como nosso ‘sítio específico’ não só pelo seu valor simbólico, cultural e sua importância na discussão urbana atual, mas também por acreditarmos que a espacialidade, os usuários e o contexto das feiras são elementos férteis para uma pesquisa em dança in situ.

Lugar de encontro e livre de uma lógica arquitetural, a feira tem um agenciamento espacial que lhe é próprio e que se constrói e renova através do fluxo de pessoas. Por mais que exista uma regra e uma funcionalidade regida pela prefeitura, podemos ver uma apropriação em relação ao agenciamento espacial das feiras que é feita pelos seus próprios vendedores e consumidores, ou seja pelos ‘praticantes ordinários’ deste espaço para citar aqui Michel DE CERTEAU . Neste sentido temos um interesse particular nas relações humanas que aí se dão e nas maneiras do corpo em ‘praticar’ e se ‘servir’ de espaços urbanos e de convívio das cidades como as feiras livres de rua.

Vislumbramos este espaço público como um terreno de experimentação possível e pretendemos questionar como a arte pode ser uma experiência ( em nível de reflexão de uma proposição artística em relação direta com as pessoas do lugar) e não unicamente um produto ‘feito’ para um mercado potencial. Sem desconsiderar a dimensão econômica das produções artísticas, do mercado da arte e de seu comércio, consideramos importante e necessário questionar como avançar em direção à uma forma de arte que permite encontrar uma ligação entre os habitantes, os usuários, as populações em um modo de fabricação que é atípico.

Questões como: dança e corpo–mercadoria, instalação de um projeto artístico em um espaço popular, reflexão sobre os usos dos espaços, a consumação dos espaços, a infiltração da arte no contexto real norteiam esta nossa pesquisa.

 

[1] Projeto contemplado pelo Premio Funarte Petrobrás de Dança Klauss Vianna 2012.

[2]A Arte in situ ou site-specific define-se em relação a seu ‘sítio’ de inserção e exposição, pelo qual é criada especificamente. Em geral efêmera, ela se constitui mais como uma proposição estética de natureza crítica  do que um elemento de decoração. A Arte in situ ou site specific vem sendo praticada em grande escala a partir dos anos 60 com a arte minimalista ou ainda através de obras de artistas como Daniel Buren, Lothar Baumgarte etc. A este propósito ver : Paul ARDENNE, Un art contextuel. Création artistique en milieu urbain en situation d’intervention de participation, Flammarion, Paris, 2002.p. 16.