Ateliê in-situ / Voltar

 Por Thais Ushirobira

O ateliê in situ foi uma das ações previstas no projeto “De segunda à sexta-feira”, indo ao encontro do interesse do Núcleo Aqui Mesmo em partilhar nossa pesquisa e de trocar com artistas da dança e de outras linguagens que tem afinidade com a produção site-specific, fomentando trocas artísticas em torno de uma idéia e construindo estéticas outras, a partir desta relação.  Para coordená-lo, convidamos o artista visual Carlos Pedreañez.

A idéia do ateliê era de que pudéssemos, junto a esses artistas, vivenciar e discutir sobre procedimentos que nos permitissem elencar ferramentas para leitura do sítio, bem como  para nele intervir artisticamente.

Realizamos algumas conversas entre Núcleo, Carlos e Ana Terra, colabora artística do projeto, para pensarmos ações a serem experimentadas, coerentes com nossos focos de pesquisa: fluxos da feira, a performance do feirante e a relação entre eles, a organização espacial, o performer como moldura para o espaço.

A partir de procedimentos performáticos anteriormente testados pelo Núcleo, Carlos propôs que essas ações fossem desdobradas em som e imagem. Foi-nos proposto, também, um processo estendido, em duas etapas. Na primeira, atuação na feira; na segunda, levantamento, apreciação de sons/imagens captados e reflexões.

Chegamos a alguns ‘objetos sonoros e imagéticos’ que, como extensores do nosso corpo, serviam à leitura e captação da feira, ampliando e fazendo recortes de cenas e apresentando-a de outra maneira. Intentamos, dentro do possível, permanecermos  ‘invisíveis’, sabendo que qualquer aproximação mediada por câmeras mudaria a dinâmica e o fluxo do lugar, o que não nos interessaria dentro da perspectiva estética/ artística em que atuamos.

O primeiro encontro aconteceu na feira da Rua Sampson, no bairro do Brás.

  1. Chapéu poroso/ sonoro: um chapéu com um gravador embutido. A proposta surgiu das pequenas histórias, comentários, piadas, ruídos que escutávamos, em trajetos realizados pela feira, e que nos chamou a atenção. Narrativas fragmentadas que tínhamos vontade de ampliar, sons que nos ‘vestiam’. Ligia o vestiu, caminhando pela feira e repetiu um dos procedimentos testados, permanecendo imóvel entre as barracas, sustentando a imagem por algum tempo e captando os comentários decorrentes da ação.
  2. Câmera sacola/ brejo/ molhada: uma câmera (IPod) envolta por um saco/ rede, conferindo textura à imagem. Segurando-a na mão, Carmen brincou com ângulos de captação e com velocidades diferentes ao transitar pela feira, compondo com os fluxos da feira.
  3. Câmera caixa: uma caixa de madeira, de armazenar fruta, na qual foi acoplada uma câmera. A imagem captada era emoldurada pelas ripas de madeira. Coloquei-me como consumidora na feira, a caixa foi usada para colocar produtos comprados, recortando a relação entre consumidor e feirante, protagonizando a ação deste último no momento da compra.
  4. Câmera paisagem: uma câmera (GoPro), acoplada a um carrinho de feira. Alternando entre deslocamento e pausa,  quase ‘coreograficamente’, as imagens captadas do carrinho tiveram um resultado muito interessante, ‘olhando’ a feira do nível baixo e desenhando trajetos e dinâmicas no espaço.

No segundo momento,  olhando para os produtos audiovisuais que tivemos com as ações, buscamos estabelecer conexões com os temas de pesquisa. A relação entre corpo e câmera foi um de nossos questionamentos, percebendo que toda postura de câmera é uma postura corporal.

Ana Terra nos chamou para o que seria um processo tradutor da linguagem audiovisual para a linguagem da dança, ou seja, do que seria uma imagem obtida por um corpo que fez repetidas vivências, que já imergiu no sitio e que, portanto, já construiu um ponto de vista sobre o espaço.

Carlos trouxe, em diversos momentos, a possibilidade de pensarmos em ‘dobras’ da ação performática e da pesquisa, o que não foi possível dentro das possibilidades desse edital, mas acende a vontade da continuidade, por abrir outras frentes de investigação e de diálogo inter-linguagem e por nos apontar outras maneiras de atuarmos e concretizarmos idéias.

Por hora, cabe pensar que olhar e que presença temos construído enquanto performers em um processo in situ, quais camadas do espaço temos privilegiado e como as temos articulado dentro de uma opção estética. Temos, pela nossa trajetória, uma lente clara que é a do corpo e as pertinentes à linguagem da dança. Com o ateliê e com a troca com outros artistas fortifica-se nosso interesse em ‘ver com outros olhos’, em pesquisar ferramentas de leitura  e de ‘estar’ no espaço. Cibele Gardin, artista parceira que esteve conosco no ateliê, trouxe a idéia de meta: acompanhar o corpo por meio de imagens geradas pelo corpo – a feira vista pelo nosso corpo, que faz a feira ser vista.